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Companheiros de jornada?

Luiz Carlos Merten

21 de fevereiro de 2014 | 12h56

Cá estou eu em casa, de novo. Viajei a noite toda, peguei o maior trânsito na chegada, por conta do acidente com morte na Av. Pacaembu, mas não seria São Paulo sem este caos. Fiz o programa da rádio de dentro do carro do jornal – ainda bem que o motorista tinha celular. Repeti um pouco a capa do Caderno 2 de hoje – com as estreias de 12 Anos de Escravidão e Clube de Compras Dallas, os nove indicados para o Oscar de melhor filme estão entregues ao público. Oito estão em cartaz. Só Capitão Philips já saiu. E há o RoboCop de José Padilha, que ameaça virar a Geni da crítica. Está todo mundo jogando pedra. Não vou bancar o Cristo, escrevendo na areia, mas o filme se completa no inconsciente do público – no nosso imaginário. O que fazer, se as antas não querem ou não conseguem pensar? Devem ter gastado o último neurônio tentando assimilar o 12 Anos. Eu ainda estou assombrado pelo intimismo visceral da ‘ação’ de Padilha, por seu tira biônico que consegue se superpor à máquina em que foi transformado. Contei que, em Paris, entre outros livros, comprei um sobre Jean Luc Godard – Les Années Cahiers, numa coleção da Flammarion editada por Alain Bergala. A mesma coleção abriga outros dois volumes sobre Jean-Luc – Les Années Karina e Les Années Mao. Vi só depois. De volta a Paris, espero encontrá-los (os livros). Godard é tão engraçado. O livro abre-se com uma entrevista-rio, concedida em 1985, em que ele fala de tudo – vida, carreira, preferências. Admite que, em Cahiers, era do contra. Se os outros não gostavam, ele defendia. E o curioso é que Godard, mesmo falando mal, nunca é venenoso/raivoso como François Truffaut. Ele conta, aliás, como pegou um detalhe da relação pessoal de Truffaut com sua estrela, Jacqueline Bisset, para expor reservas a A Noite Americana – diz que viu os dois num restaurante e a cena poderia/deveria estar no filme -, e François lhe enviou uma carta longa e cheia de desaforos. O livro de Pasolini é Écrits sur le Cinema, na Petite Bibliothèque des Cahiers. É uma coletânea de pequenos diálogos com filmes, como está na capa, que Pasô escreveu entre 1957 e 74. Já disse que achei divertido ler as reservas do autor a Rocco e Seus Irmãos, algumas, talvez, pertinentes, mas que isso não alterava em nada meu sentimento pela obra-prima de Visconti. Pasolini também não poupa Os Deuses Malditos – a segunda parte -, mas é curioso que, em ambos os casos, as críticas assumem a forma de cartas afetivas que ele escreve ao amico Luchino. Como roteirista de O Belo Antônio, ele também escreve um texto elogiando a mise-em-scène de Mauro Bolognini, e de como ela melhora/aprofunda o que escreveu. Gostei demais, porque, como admirador do grande Mauro, sempre lamentei que as qualidades dos filmes que Pasolini escreveu para ele fossem atribuídas somente ao roteirista. Mas confesso que minha grande surpresa foi um pequeno texto – Contra Eisenstein – sobre O Encouraçado Potemkin. Quem me acompanha no blog sabe que sempre bati na tecla do filme como peça de propaganda – para comemorar os 20 anos dos levantes de Odessa -, e que os marinheiros do Encouraçado são ‘tipos’, seres sem alma que estão ali para encarnar qualidades positivas, como em qualquer publicidade. Pasolini diz a mesma coisa e, se ele resgata os 7 minutos da escadaria, é justamente para opor o fuzilamento da multidão ao que considera a ‘insinceridade’ do restante do filme. E não é que, como do contra – como diria Celso Sabadin -, me encontro numa companhia, que adjetivo uso?, ‘interessante’?

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