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Como quien se desangra…

Luiz Carlos Merten

19 de julho de 2012 | 16h48

Estou mortificado. Contava as horas, desde segunda, para assistir hoje ao ‘Fausto’ de Christopher Nolan, perdão, a ‘Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge’. Tinha os textos de amanhã do ‘Caderno 2’, inclusive a entrevista com meu conterrâneo Carlos Gerbase, que repete a experiência de ‘Três Efes’ e lança seu novo filme, ‘Menos Que Nada’, nos cinemas, na TV (Canal Brasil) e na internet. O problema é que só falei hoje com Gerbase – às 9h30! –, cheguei esbaforido no Shopping JK Iguatemi para descobrir – 1) que o filme do Nolan tem quase três horas; e 2) que a sessão ia começar atrasada, quase 11 horas. Nem com banda de música eu conseguiria ver o filme, correr para minha casa e redigir o texto sobre o Gerbase para o fechamento do ‘Caderno 2’ (às 14h30). Vi hora e meia do filme e, ‘como quien se desangra’ – como dizia Ricardo Güiraldes de seu Dom Segundo Sombra -, deixei o cinema e peguei um táxi para Pinheiros, onde descobri que o Word do meu laptop estava travado, o que ainda me forçou a sair de casa para redigir o texto. O que vi do ‘Batman’ me deixou siderado e aquele diálogo do mordomo (Michael Caine), tentando romper o isolamento de Bruce Wayne (Christian Bale), é o que acredito que deva ser o cinema. Preciso ver o filme inteiro – agora só na terça –, mas confesso que fiquei com umas ideias. Havia sentado ao lado de Orlando Margarido e, na saída, comentei com ele que não sabia porque perdiam (ele e muitos coleguinhas) tempo com o Alexander Sokurov. Ele replicou – ‘Para com isso’ –,. mas a verdade é que começou a se formar na minha cabeça um raciocínio que não sei se o filme vai segurar, mas como Nolan é gênio aposto nele minhas fichas. Antônio Gonçalves Filho escreveu no ‘Caderno 2’ uma elegia a ‘Fausto’, tentando verbalizar a epifania que teve assistindo ao filme. Eu estava tendo a minha com o Nolan. Com todo respeito pelo Toninho, toda aquela erudição sobre Sokurov me deixou de mármore. Todas aquelas referências só reforçaram minha impressão de que o filme é o ‘Arca Russa 2’. Muito obrigado, mas estou passando. Quando falo no ‘Fausto’ de Nolan é ao pé da letra. O jogo de projeções e de duplos no centro da sua trilogia sobre o Cavaleiro das Trevas – o movimento de câmera e as lentes que ele usou para criar aquela inversão do Batman e do Coringa no filme anterior – me levou a pensar em procedimentos óticos, sempre citados quando os especialistas dizem que Goethe talvez tenha sido o maior dos polímaros. Mas a verdade é que os escritos científicos de Goethe, suas teorias sobre a luz, sempre foram contestadas e refutadas , e Otto Maria Carpeaux chega a sugerir que o ‘cientista’, nele, constrange o escritor, esse sim, grande. Hoje, a questão do ‘Fausto’ estava tão flagrante que me bateu o insight de que Nolan talvez estivesse tentando jogar com isso quando fez uso das perspectivas – jogos óticos? – de Escher em ‘A Origem’. Não me impressiono muito quando as pessoas vão ver um filme com pretensões a erudito e tiram dali, ou jogam ali, o que sabem sobre o assunto. É óbvio. Agora, no ‘Batman’… Christopher Nolan é f…

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