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Como é viver online

Luiz Carlos Merten

18 de agosto de 2020 | 12h05

Voltei aos meus clássicos. Quando os Homens São Homens, RobertAltman, Os Canhões de Navarone, J. Lee Thompson, Muito Além do Jardim, Hal Ashby. Chance the gardener, ou Chauncey Gardner. Peter Sellers naquela que o convidado bem trapalhão considerava sua maior criação. Quero acrescentar um Robert Aldrich, mas hesito. The Killing of Sister George – Triângulo Feminino? Aldrich foi sempre tão truculento ao falar de mulheres (O Que Aconteceu com Baby Jane?) e homens (Os Doze Condenados) que tenho a impressãso de que sua abordagerm pioneira da homossexualidade feminina corre hoje o risco de parecer incorreta. Queria um Almodóvar, também, e o Pedrito correto, para esses tempos, seria o de Tudo Sobre Minha Mãe, mas eu me inclino mais pelos perversos, e doentios. Carne Trêmula e A Pele Que Habito. Enfim, repito o quee escrevi já há 11 dias, estou voltando. Mas tem sido difícil. O pós-operatório me derrubou. Tenho feito muitas matérias para o jornal, e isso me mantém ocupado, é bom, mas ando exasperado com a proliferação de eventos online. Todo dia me ligam para anunciar algum festival, e todos remotamente. Daqui a pouco serão 11 horas e Gramado estará anunciando sua seleção para o festival deste ano, que será hospedado pelo Canal Brasil. Tem o Festival de Curtas, o de Melhores Filmes, a prévia do Festival Judaico, já houve o egípcio, o Ecofalante está rodando. Não consegui dar conta de que nas edições de Sight and Sound e Cineaste que comprei na banca do Conjunto Nacional encontrei belíssimas entrevistas de Spike Lee, sobre Destacamento Bloods, e Bertrand Tavernier, sobre sua Viagem pelo Cinema Francês. Nas minhas últimas – as mais recentes – idas a Paris tenho visto, no Le Champo e na Videothèque du Quartier Latin, o resgate de diretores que François Truffaut fustigava na Cahiers e que estão sendo reentronizados. Henri Décoin, Julien Duvivier, Henri-Georges Clouzot, René Clément e Claude Autant-Lara, que o próprio Truffaut descobriu tardiamente (Clément). Assisti, e confesso que não sem sacrifício, na Netflix, a Rede de Ódio. Para quem vive fora das redes, como eu, toda aquela conversa de hashtags me aborreceu um pouco – só me provou que estou certo ao não entrar nessa enrascada travestida de modernidade (de merda) -, mas a verdade é que eu terminei vendo o filme de Jan Komasa de um jeito muito particular. O garoto é voyeur, tem aquela cara doentia, com olheiras profundas. Alguém aí pensou em Krszystof Kieslowski, Não Amarás? E o atentado ao político? Ecos de Cinzas e Diamantes, de Andrzej Wajda? Não sei, sinceramernte, se isso é coisa de velho, mas eu termino voltando sempre aos meus clássicos. Acho legítimo que Komasa, sendo polonês, retorne aos grandes de sua cinematografia. A hashtag, os haters, são só para dar nova roupagem ao déja vu. A questão é que discutir as redes de ódio é muito importante – necessário, no momento atual. Estou pasmo de ver como as pessoas se comportam na flexibilização. Estão ligando o foda-se e não dão a mínima para o outro. A aprovação do presidente cresce à medida que se somam as evidências contra os zeros e os economistas sérios contestam a condução da crise pelo Posto Ipiranga. Como se consegue essa aprovação? Criando redes de ódio, claro. Estamos vivendo o horror, o horror. O que foi aquela manifestação contra o aborto da menina de dez anos que foi estuprada e engravidou? Direito à vida! Ando me sentindo mais solitário que nunca. Não é ruim. Consigo conviver comigo. E tenho novos amigos – um, em especial.

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