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Luiz Carlos Merten

06 de julho de 2013 | 00h09

Não tive tempo de repercutir os comentários no post sobre Billy Wilder, Ninguém É Perfeito. Meu amigo Fernando Severo diz que não existe essa coisa ‘o pior BW’. O pior do pior é que existe, sim, e nesta quadra da minha vida eu não estou mais seguro daquela máxima do cinema de autor – o pior de não sei quem é melhor do que o the best de diretores que não gostamos. Engraçado é que a expressão foi cunhada em Cahiers du Cinéma para falar mal de John Huston, um diretor prestigiado mas de quem os críticos da revista não gostavam. Com o tempo, Huston foi consolidado no panteão dos maiores, e eu o amo não exatamente pelos filmes que, para os outros, fizeram sua glória. Prefiro a fase psicanalítica, pós Freud, Além da Alma, aos filmes iniciais (Relíquia Macabra, O Tesouro de Sierra Madre) e com certeza levaria para a ilha deserta Os Pecados de Todos Nós/Reflections in a Golden Eye, adaptado de Carson McCullers, que é genial. Fim do parêntese. Renato Félix me observa que adora Cupido não Tem Bandeira e riu muito com James Cagney. No post, acho que deixo claro que o filme, embora seja ruim, é paradoxalmente muito engraçado, e eu também ri com James Cagney. Foi um de seus últimos papeis, mas eu confesso que prefiro o chefe de polícia paralítico de Na Época do Ragtime, de Milos Forman, aquele sim, uma obra-prima. E chego ao Mauro Brider, que me fala de um John Ford de que não gosto,. mas que ele adorou, The Long Voyage Home. Até bem pouco tempo eu nem havia visto o filme. Quem me deu uma cópia de DVD foi o André Garolli, depois que assisti à sua encenação do texto de Eugene O’Neill. O filme baseia-se não em uma peça de O’Neill, mas em quatro. Uma é justamente A Longa Viagem de Volta para Casa e as demais, Rumo a Cardiff, Zona de Guerra e Luar de Agosto. No livro com a entrevista que John Ford lhe concedeu, Peter Bogdanovich conta que a adaptação do mestre, com roteiro de Dudley Nichols, era a preferida do próprio escritor. Foi um dos três filmes que Ford fez em 1940 e os outros foram Vinhas da Ira, que lhe deu o Oscar, e Ao Rufar dos Tambores, com a cena em que Henry Fonda corre dos índios. Não creio que seja um mau filme (o Viagem), mas certamente não é um grande Ford. O que me incomoda na odisseia dos homens ao mar, sem mulheres, de Ford, nem é tanto a natureza fordiana do Smitty de Ian Hunter, o marinheiro rude proscrito pela elite – e, neste sentido, não deixa de haver certa aproximação com o Jean Gabin de A Grande Ilusão, de Jean Renoir, três anos antes -, mas o estilo visual expressionista, que o cineasta já vinha exercitando através de O Delator e Mary Stuart, mas que aqui me parece particularmente datado. Aí está, Mauro, a origem de minha implicância com A Longa Viagem de Volta para Casa. Mas é bom assinalar que o filme tem admiradores. e, em 1940, Ford foi melhor diretor para os críticos de Nova York por este filme e por Vinhas da Ira, adaptado, não por Dudley Nichols mas por Nunnally Johnson, de John Steinbeck. Um dia será preciso analisar as diferentes fases de Ford a partir de seus roteiristas. Tenho certeza de que a contribuição de Frank S. Nugent – Depois do Vendaval e Rastros de Ódio – será das maiores.

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