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Comédia dos erros

Luiz Carlos Merten

03 de maio de 2014 | 16h30

Cá estou de volta a São Paulo. Cheguei há pouco,, e acrescento rapidamente o post para dar conta da premiação do Cine PE, ontem à noite. Nem tive tempo de comentar o filme de Jorge Durán, Romance Policial, como havia prometido. Os debates foram até tarde, emendei com almoço, a rádio em Salvador – e a verdade é que estávamos ontem todos prostrados com a morte de João (Carlos) Sampaio. Ainda falarei sobre o filme de Durán, que a Pandora promete para agosto, no pós-Copa. Mas agora vamos à premiação. No afã distributivista de tentar contentar a todos, o júri do Recife cometeu algumas atrocidades, sinto dizer. Duplicou prêmios, carregou nas menções, e até elas foram divididas. Fomos, um grupo de jornalistas, jantar no Dias Ferreira. Gastamos boa parte de nosso tempo – Zanin, Maria do Rosário, Orlando Margarido, o Rodrigo (do Cineweb), o Vieira, de Portugal, e eu – tentando identificar alguns premiados. No final, um comunicado do próprio festival esclareceu que o prêmio de coadjuvante atribuído a Romance Policial viera com o nome errado, e que o ator citado no palco do Teatro Santa Isabel, Victor Monteiro, nem sequer está no filme. Sua participação foi cortada. O júri queria ter premiado o chileno Álvaro Rudolphy. Ó céus! O júri descarregou seus prêmios no filme de Mini Kértis, Muitos Homens num Só, do qual gosto bastante, mesmo assim, nove Calungas, mais uma do público – dez! – me pareceram um tanto demais, sobretudo em detrimento do longa argentino Todos Tenemos Um Plán, de Ana Fiterberg, que não ganhou nenhum. Nenhum! Pergunto-me o que levou aquele júri a deixar de fora um dos melhores, senão o melhor filme de competição? Todos Tenemos Um Plán já havia passado na Mostra SP ou no Festival do Rio, não sei bem, porque não vi  na ocasião, é um filme de 2012, mas, enfim, se foi aceito na competição era o critério que deveria prevalecer e, depois, Anos Felizes, da Itália, e o documentário E Agora? Lembram-se também não eram inéditos no circuito de festivais do Brasil. Fui consolar a diretora e Ana Fiterberg fez graça, dizendo que conseguira ser a única a não ganhar prêmio nenhum num evento em que todo mundo teve seu quinhão. Ia levar a piada adiante, dizendo que o filme dela não ganhou porque era bom demais para aquele júri, mas aí me dei conta de que seria injusto com Mini Kertis, com Jorge Durán e Guilherme Fiúza, de O Menino no Espelho. Muitos Homens num Só ganhou nas categorias de melhor filme, diretor(a), roteiro (Leandro Assis, o primeiro dele), edição de som (o nome citado no palco também estava errado), trilha sonora (Dado Villa Lobos), direção de arte (Kiti Duarte), ator (Vladimir Brichta), atriz (Alice Braga) e coadjuvante masculino (Pedro Brício, empatado com o filme de Durán), além do prêmio do júri popular. O segundo vencedor da noite foi Romance Policial, que ganhou os prêmios de ator coadjuvante (aquela confusão a que já me referi), atriz coadjuvante (Roxana Campos) e fotografia (Luis Abramo). O italiano Anos Felizes levou os prêmios de montagem (Mirco Garron) e atriz coadjuvante. Para descobrir quem era Pia Engelberth, quase quebramos a cabeça pesquisando. Ela faz a mãe de Kim Rossi Stuart, o protagonista, e tem uma única cena (com ele). O curioso é que, na cena, ela serve de escada para Kim, que tem uma explosão e está muito bem, Gosto demais do Festival do Recife, que teve este ano talvez o menor público de sua história, ou desde que foi para o Cine-Teatro Guararapes. O Cine PE anda sob mau tempo, duramente criticado por intelectuais pernambucanos, incluindo diretores, que acusam o casal Bertini de fazer seu festival para críticos de fora. Preocupa-me a questão do público, porque a fama do Cine PE vem da etiqueta que lhe foi colada de ser o Maracanã dos festivais brasileiros. No ano de sua internacionalização, o festival esteve longe disso, mas não se pode dizer que tenha sido uma má seleção. Só teve uma aberração, um tal filme-DJ, seja lá o que signifique, e dois documentários foram grandes – o de Jorge Furtado, O Mercado de Notícias, e mais ainda o do português Joaquim Pinto, E Agora? O problema é que não se pode falar em internacionalização, talvez em ‘latinização’, com filmes estrangeiros somente de países latinos e um júri, ou júris, só de brasileiros. Torcia, torço, para que a curadoria de meu amigo Rodrigo Fonseca dê certo, mas voltei impressionado com o clima de polarização que reina por lá, uma coisa assim meio Venezuela.

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