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Começou bem o Verão sem Censura. Clowns, Dib, Dos à Deux

Luiz Carlos Merten

18 de janeiro de 2020 | 10h47

Emendei ontem dois espetáculos do Verão sem Censura do prefeito Bruno Covas e do secretário Alê Youssef. A promessa havia sido feita durante a ocupação do Teatro Municipal, que se abriu para o cinema, durante a Mostra. Vi o Abraços, na montagem dos Clowns de Shakespeare e logo o Gritos, pelo grupo franco-brasileiro Dos à Deux. Fiz um novo amigo na fila do Centro Cultural Olido, saímos para beber (e conversar). A vida é uma caixinha de surpresas. Estive próximo de Dib Carneiro Neto por mais de 20 anos e nunca havia visto/ouvido alguma de suas intervenções no teatro infantil. Ontem, ele conduziu o debate sobre o espetáculo do Clowns, que foi censurado pela Caixa, no Recife. A questão é – por quê? O presidente Jair Bolsonaro cultiva um estilo intimidatório, como quando disse que não poderia admitir que filmes como Bruna Surfistinha fossem produzidos com dinheiro público. Fica uma censura velada. A censura a Abraços – a Caixa Cultural simplesmente cancelou as apresentações, após o primeiro debate – não foi por causa do espetáculo, em si, mas algo que foi dito naquele debate no Recife. Gostei demais de Abraços, que se baseia n’O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano. A montagem integra uma trilogia dos Clowns dedicada à cultura latino-americana. Um país onde o abraço não é permitido. Um quadrado delimitado no chão, três personagens que assumem diferentes identidades – militares, o soldado e o general, a menina, a florista, a velha. O general (Pinochet?) terá de ser banido do palco/do poder para que o abraço seja permitido. Achei lindo. Camadas e mais camadas, uma forma lúdica, mais que didática, de abordar temas graves para crianças. E a trilha. Marco França, além da direção, criou a trilha, que bebe em Astor Piazzolla, Violeta Parra (Gracias la Vida). Amei! Na sequência foi o Gritos, e até agora estou tentando decifrar o que vi, e foi fortíssimo. Mais até que Abraços, com suas várias formas de expressão – gestual, quadrinhos, bonecos, etc -, Gritos também prescinde das palavras – e o pessoal do Clowns assumiu que o Dos à Deux foi uma referência importante. Gestual, bonecos, objetos, trilha. Foi uma das experiências mais imersivas que tive no teatro. Não creio que estivesse vendo coisas melhores no Santiago a Mil, se não tivesse ficado preso em São Paulo nesta semana. Cheguei em casa embriagado de alegria e agradecendo ao Bruno e ao Alê pela iniciativa. Há que resistir. Antes de iniciar o post, tentei ver as últimas do pós-Alvim na secretaria Nacional de Cultura e encontrei que Regina Duarte diz hoje ao presidente se aceita o cargo. Regina Duarte! Lembrei-me imediatamente de um texto de Nirlando Beirão na CartaCapital. Mulheres que envergonham outras mulheres. Regina, de namoradinha do Brasil, sempre com tanto medo da esquerda, a pobre, a namoradinha da milícia, era isso, não? Está duro a ficção competir com a realidade no Brasil, mas imagino que, com Regina, se for confirmada, possa haver diálogo, apesar de tudo, e o tudo, na área cultural, nesse governo, não é uma montanha de problemas, mas uma cordilheira inteira.

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