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Com o coracao sangrando

Luiz Carlos Merten

23 de julho de 2018 | 23h59

Gostaria de estar falando de filmes dos quais gostei muito – Alguma Coisa Assim e Uma Casa a Beira-Mar. Ambos tratam de afetos, na juventude e na idade madura. E Alguma Coisa talvez seja o oposto de Me Chame Pelo Seu Nome. O filme do italiano Lucca Guadagnino fala de atirar-se em busca do novo, o de Esmir Filho e Mariana Bastos sobre a importancia de ficar junto. Uma Casa a Beira-Mar e belissimo. Robert Guediguian em plena forma. Tres irmaos, uma mulher e dois homens, reunem-se para assistir o pai, que esta morrendo. Velhos ressentimentos, a vida que vem. Tambem terei de falar de Refugio, a montagem de Alexandre Dal Farra do seu texto, pessoas que comecam a desaparecer sem que se saiba exatamente por que. A metafora comporta multiplas leituras que náo sei se estou interessado em fazer. Cada vez tenho menos atracao por esse teatro de atores que náo precisam projetar a voz porque usam microfones. (A cara de pau é tanta que nos teloes que integram o espetáculo as hastes ficam maximizadas nos rostos do elenco.) Mas confesso que tudo isso hoje ficou superfluo. Morreu nesta manhá, em Porto Alegre, minha irmá. Marlene havia sofrido um AVC isquemico ha duas ou tres semanas. Na sexta, veio outro AVC, hemorragico, que atingiu o lado direito do cerebro. Ela entrou em pre-coma, morreu na manhá desta segunda-feira, 23. Esta sendo um ano muito duro, como se os deuses estivessem me colocando a prova. Tive de fazer essa cirurgia de joelho – uma protese -, cuja recuperacao esta sendo dolorosa. Terminei uma relacao de mais de 20 anos, de uma forma táo brutal que nao vou negar que me abalou. E agora morreu a Marlene. Eramos quatro irmaos, eu, o cacula, Ildo, o mais velho. Intermediarias, as duas irmas, Marli e Marlene. Ela era a segunda mais velha. Furou a fila, como me disse a Marli. Impossivel nao pensar quem ira agora? Nao se trata de uma questao de preferencia entre os irmaos, mas acho que a Marlene foi fundamental na minha formacao. Ela trabalhava no crediario da Livraria do Globo, numa epoca, anos 1950, inicio dos 60, em que o credito era privilegio de poucos. A Livraria do Globo era uma potencia em Porto Alegre. Livraria e editora, pertencia a uma familia tradicional, os Bertaso. Minha irma sempre se referiu a seu chefe como seu Claudio (Bertaso), o grao-senhor a quem devíamos deferencia. Naquela epoca, eu estudava no Colegio Julio de Castilhos, que ficava no Centro. Saia da aula e muitas vezes ia para a livraria. Seu Claudio me passava a mao na cabeca, me chamava de guri e eu me deslumbrava com todos aqueles livros. (Sou guttenberguiano.) E por ali andavam Erico Verissimo, Mario Quintana, Josue Guimaraes, todos crias da casa, nem sabia direito quem eram. Nao sei se alguma vez agradeci formalmente a Marlene por esse privilegio que ela, como trabalhadora, como funcionaria, me proporcionou. Morreu minha irma, a primeira a ir-se. Isso tem um significado que nao é somente simbolico. Confronta a gente com a finitude. Quem irá a seguir? Nao sei se a morte me assusta. Ja perdi tanta coisa. O importante e que, nesse momento, estou vivo e tenho o cinema. Mas o coracao está sangrando. Marlene, minha irma querida, obrigado.