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Com Nicholas Ray no túnel do tempo, Os 55 Dias de Pequim

Luiz Carlos Merten

28 de janeiro de 2019 | 16h29

Quando falo que a minha casa é uma confusão, com livros, revistas e DVDs espalhados por toda parte, sempre penso que as pessoas devem achar que exagero, ou estou querendo fazer gênero. Mas é a pura verdade! Some-se a isso o fato de a diarista, a Odete, volta e meia arrumar as coisas do jeito dela, e elas somem aqui dentro de casa. Às vezes, reaparecem quando a Odete faz outra arrumação. Por exemplo, comprei, em 1993, um número especial de Cahiers du Cinéma, Hors-série. 100 Films pour une Videdothèque. Há 26 anos! Cem filmes para uma videoteca. Nem me lembrava. No editorial, Thierry Jousse explica porque uma revista que sempre defendeu a ida ao cinema como um ato de amor – é uma questão geracional, também me sinto assim -, de repente estava encampando como esclarecedor o ato de (re)ver os filmes em casa. Não se trata de uma lista de 100 melhores filmes em cassette, nem era DVD. Entre os títulos disponíveis no mercado, Cahiers selecionava um número preciso de obras que mereciam revisão e que o vídeo, por seu mecanismo – é possível parar, retomar, etc -, poderia ajudar a resgatar. A relação está em ordem alfabética, de A a V, ou de Abyss (de James Cameron) a Vidéodrome (de David Cronenberg). Abri ao azar e era a página de Os 55 Dias de Pequim, o único filme de Nicholas Ray da lista. Stéphane Bouquet começa lembrando que a reputação da obra não é boa, mas depois de ler o texto dá para perceber que ela está convencida daquilo que eu, particularmente, sempre achei – que não é só um Ray grande, mas um grande Ray. Dos maiores, e mais reveladores de sua estética. E Stéphane nem toca o ponto essencial. Em 1963, sob o impacto do neo-realismo e da nouvelle vague, os cinemas nacionais estavam irrompendo em todo o mundo. A década iria mudar tudo, abrigando o célebre Maio de 68 e Ray se antecipava ao culto a Mao, e a seu livro vermelho, com uma aventura colonialista (antirrevolucionária?) em que o projeto coletivo é destinado ao fracasso e restam as soluções individuais. O império é destroçado e dos escombros dessa Chima destruída pela guerra interna (e externa), tudo acontece para que Charlton Heston, no desfecho, estenda a mão para recolher a menina em seu cavalo, como John Wayne faz com Natalie Wood em Rastros de Ódio, de John Ford. Não conheço filme mais suntuoso – nem Visconti! – e se Ray alguma vez radicalizou seu conceito do cinema como a melodia do olhar, foi aqui. Os olhos não refletem apenas o interior dos personagens. O olhar conduz o fluxo da montagem, e hoje é possível dispor de informações preciosas que esclarecem – e iluminam – o todo. Ray, poeta maldito, reservou-se o papel do embaixador norte-americano que, preso a uma cadeira de rodas, diz a seus colegas europeus que não liga a mínima para a revolta dos Boxers e que eles podem fazer o que quiserem. Na verdade, ao se mostrar como paralítico, Ray, autor de seus filmes, estava querendo chamar a atenção para seus problemas com o superprodutor Samuel Bronston. Ele chegou a sofrer um ataque cardíaco que o afastou da montagem. Mas, então, como e por que a edição de imagens é tão pontuada pelo olhar, mais do que qualquer outro filme do diretor? E se a revolta dos Boxers, como grande História, não lhe interessava, é óbvio que seu foco estava no trio formado pelo soldado dos EUA (Heston), o embaixador inglês (David Niven) e a aristocrata russa (Ava Gardner), mais, é claro, a garota chinesa. Sua descrição da corte – a imperatriz Flora Robson, com suas longas unhas artificiais que conferem graciosidade (ou terror) a seus gestos, e o príncipe conselheiro, a quem Robert Hellpmann imprime um caráter ambíguo, quando não perverso, são geniais. Sempre gostei muito de Os 55 Dias de Pequim e até acho que esse filme de Ray e A Queda do Império Romano, de Anthony Mann, outra produção de Samuel Bronston, lançada em 1964, são talvez os que mais revelam sobre as transformações em curso naquela década. Esplendor e decadência dos impérios. Por que refletir sobre isso? Porque a Guerra Fria, que se transferira para o espaço, ia redesenhar a geopolítica mundial. Como aqueles caras, Mann, um diretor de westerns, e Ray, que também imprime uma pegada de western a 55 Dias, sabiam disso? Por misterioso que pareça, sabiam. Talvez fosse o aporte do roteirista Philip Yordan.