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Cinemascope

Luiz Carlos Merten

08 de novembro de 2013 | 23h22

Fiz hoje uma colonoscopia, e só quem já fez pode avaliar o que foi meu sofrimento desde ontem, com o preparativo para o exame. A parte boa é que, em casa, entre uma matéria e outra para o Caderno 2, fiquei vendo filmes na TV paga. Devo ser um voyeur de carteirinha – ninguém que se proclame crítico de cinema deixa de sê-lo -, mas a verdade é que ontem devo ter revisto Os Imortais pela centésima vez. Não, não considero Tarsem Singh um grande diretor, e muito menos um herdeiro de Vittorio Cottafavi e Riccardo Freda, cujas fantasias mitológicas esculpiram meu imaginário por volta de 1960. Até hoje, creio que Hércules na Conquista da Atlântida é um grande filme e Belinda Lee, filmada por Cottafavi, foi uma das coisas mais lindas que iluminaram a tela. Mas, enfim, o que quero dizer é que o indiano Singh pode não tão bom, mas eu não me canso de ver e nem desgrudo o olho de Henry Cavill e Freida Pinto. Que que são aqueles dois? Teseu e sua oráculo, que pede que ele a coma para poder ver o mundo com os olhos de uma mulher, Deus que aquilo é lindo! Coloquei a exclamação e me lembrei de um comentário, acho que do Sidney, naquele post em que eu falava da premiação da crítica na Mostra e me lamentava porque alguns coleguinhas queriam votar no Tsai Ming-liang. Sidney lembrou que meu colega Luiz Zanin Oricchio gostou muito de Cães Errantes e essa é a prova de que as opiniões variam e ninguém é dono da verdade. Eu não quero ser dono da verdade, mas como não resisto a uma provocação, vou lembrar Billy Wilder – ninguém é perfeito. Por exemplo, quem gosta de Cães Errantes!  Mas como eu não me importo de dar munição para o outro, que se opõe a mim, comprei no aeroporto de Los Angeles – não, foi na Barnes & Noble do Grove – o número 56 de Cinemascope, uma revista bem interessante, cujo lema é ‘Expanding the frame on international cinema.’ A capa é dedicada a Albert Serra e ‘Story of My Death’, mas há um texto de Blake Williams sobre a forma como o digital influenciou e até mudou a estética de Tsai Ming-liang. Chama-se (o texto) ‘Master shots’. Eu continuo não gostando, mas Williams explica às pessoas porque gostam do tempo estirado de Tsai e não sabem explicar. Ah, sim, para não dizer que não gostei de nada, achei curioso que os filmes de Paula Gaitán e Tsai, que vi no mesmo dia, terminem em cenários desabitados por pessoas – que somem do quadro. Michelangelo Antonioni fez isso em 1962 em O Eclipse e o filme dele, 51 anos depois, continua sendo uma boa ideia. O ‘boa’ é homenagem à cachaça. O Eclipse é mais que isso. Tanto tempo depois, com ou sem inovação técnica, ainda deixa as vanguardas de hoje à retaguarda.

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