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Cinema reencontrado

Luiz Carlos Merten

18 Março 2017 | 20h03

Nas suas resoluções de começo do ano, Cahiers promete dedicar-se mais ao estudo da história do cinema em 2017. Na edição de fevereiro, com Natalie Portman/Jackie na capa, já havia um Cinéma Retrouvé dedicado a William Wellman, com um título tão curioso como ambíguo, Beau Geste (Belo Gesto), pegando carona que ele adaptou a conhecida história de P.C. Wren em 1939, com Gary Cooper. Wellman foi sempre um enigma pára mim. Fez filmes importantes – de aviação (Wings/Asas, que vernceu o primeiro Oscar), westerns (o cultuado Consciências Mortas, sobre linchamento), mas nunca consegui ser generoso como Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, quando analisa a sobriedade, que considera ‘exemplar’ do diretor, e diz que ele não tinha nenhuma vontade ou necessidade de surpreender. Nenhum efeito espetacular. Wellman sempre soube do que falava, garante Tulard. De minha parte, e comparado aos mestres de Hollywood que ocupam meu panteão (John Ford, Raoul Walsh, Howard Hawks, Henry Hathaway), Wellman é um chato de galochas, que faz jus à sua fama de cineasta entendiante. Acho legal que Cahiers, Bíblia do cinema de autor para tanta gente (coleguinhas…), tenha essa generosidade revisionista que, volta e meia, tira diretores viscerais do limbo. Agora mesmo, há um revival de Richard Fleischer na França, mas esse sempre foi grande para mim. Já escrevia em jornal, no começo dos anos 1970, quando estreou Os Novos Centuriões. Achei um puta filme, mas fui defensor solitário. A maioria, na época, achou fascista. A revisão tem ajudado a colocar The New Centurions em perspectiva e até já li que era uma obra-prima adiante de sua época. Em janeiro, tipo carta de intenções, Cahiers resgata o cinema cubano dos anos 1960 e o giallo (italiano) dos 70. Três especialistas consultados (Olivier Père, Jean-François Rasuger e Gilles Vannier) fazem suas listas dos Top 5 Gialli e só Les Frissons de l’Angoisse/Profondo Rosso, de 1975, de Dario Argento, está em todas. Lembrei-me muito do gênero, e de Argento, assistindo à aula magna de Rabih Mroué. Numa parte, ele lembrou experimentos científicos segundo os quais as últimas imagens vistas por uma pessoa antes de morrer permaneceriam gravadas na sua retina. Tem tudo a ver com o começo do pai de Asia Argento – O Pássaro das Plumas de Cristal, O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas no Veludo Cinza. O último já era sobre isso… É a vantagem de estar na ativa há tanto tempo. As coisas vão e vêm. Ficam, o que é mais importante. E ah, sim, falei que Jackie, de Pablo Larrain, ocupa a capa de Cahiers em fevereiro. Em janeiro, a revista dedica páginas e páginas (quatro, com direito a crítica e entrevista) a outro filme do chileno, Neruda. Joachim Lepastier vê o filme com reservas. Confesso que não li, mas eu também, não sei se pelos mesmos motivos. Não é um Larrain que posso chamar de ‘meu’. Cheguei a gostar mais do outro Neruda…