As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cinema de gênero, resgatando o western

Luiz Carlos Merten

11 de maio de 2015 | 13h23

Houve tempo em que o western era chamado de gênero norte-americano por excelência, mas, apesar de o próprio John Ford definir-se como um diretor de faroestes, os bangue-bangues nunca foram muito prestigiados como produtos ‘artísticos’, ao contrário do musicais. Vários filmes cantados e dançaram ganharam o Oscar – de filme e/ou direção -, ao contrário dos westerns, cujos vitoriosos contam-se nos dedos de uma mão.  Por que escrevo isso? Porque hoje em dia, quando se fala em cinema de gênero – e no Recife a discussão foi farta -, quer-se dizer exclusivamente ‘terror’. Os westerns sumiram – até Clint Eastwood parou de fazer -, os musicais viraram sazonais. E a todas essas, a fantasia científica cresceu tanto que não é mais etiquetada como ‘gênero’. Só o terror. Pois vamos falar de western. A Versátil, que está sempre resgatando o cinema de gênero de terror – agora mesmo, lançou um pacote de Mario Bava -, tem também um pacote de DVDs de westerns, com direito a seis filmes distribuídos por três discos. John Ford, Raoul Walsh, Anthony Mann, Budd Boetticher, Jacques Tourneur e Joseph Lewis. Pensando estritamente em termos de cinema de gênero, creio que o Boetticher, O Homem Que Luta Só/Ride Lonsesome, que pertence à série com Randolph Scott, é o melhor de todos, mas tenho um carinho especial pelo ataque ao racismo e à estrutura de flash-backs do de Ford, Audazes e Malditos, que não deixa de antecipar o outro puzzle – maior – de O Homem Que Matou o Facínora. Creio que O Homem Que Luta Só pode ser considerado uma súm,ula do cinema de Boetticher. Randolph Scott faz um caçador de recompensas que transporta prisioneiro, junta-se a ele um bando selvagem e o mocinho e o ‘bandido’ viram as duas faces da mesma moeda, porque o herói boettcheriano tem sempre um lado escuro. No caso de Ford, Jeffrey Hunter defende Sergeant Buffalo (Woody Strode), acusado de estupro num forte do Velho Oeste. Muita gente reclama do suspense, que considera artificial, mas eu considero o tema avançado para a época e o desfecho, muito interessante. Além disso, adoro a trilha com os Sons of the Pioneers, que reproduz os lamentos dos negros americanos aceitos mas não integrados no Exército, no qual permaneciam marginais. Não creio que Comando Negro seja um grande Walsh, e espero que a versão do pacote – ainda não conferi – não seja a colorizada por computador, mas gosto da forma como o jovem xerife John Wayne enfrenta o renegado Walter Pidgeon, que, como o lendário Quantrill, está promovendo um banho de sangue. Walsh não fez muitos filmes com Wayne, que era, por assim dizer, ‘exclusividade’ – ia escrever propriedade – de Ford, mas aqui o reúne com Claire Trevor, a duplado clássico No Tempo das Diligências/Stagecoach, feito no ano anterior (Dark Command é de 1940). Não creio que Almas em Fúria seja um grande Mann. O filme parece meio estranho no contexto dos westerns que ele fez, antes e depois, com James Stewart. Barbara Stanwyck faz a rancheira em choque com o próprio pai e o filme carrega no elemento psicanalítico – o complexo de Electra -, adotando um tom operístico que sempre me pareceu excessivo, mas é o que justamente faz sua fama, e The Furies tem muitos defensores ardorosos. Posso parecer contraditório – quem não? -, mas a heroína protofeminista, de faca na bota, de Barbara não me convence como a de Joan Crawford em Johnny Guitar, que Nicholas Ray dirigiu dois ou três anos depois. Também me desconcerta o duelo de arpão, substituindo o revólver, no desfecho de Reinado de Terror, mas confesso que há no cinema de Lewis uma intensidade que mexe comigo, embora Terror in a Texas Town não valha seu magnífico noir, Mortalmente Perigosa/Gun Crazy. Finalmente, Paixão Selvagem/Canyon Passage, de outro mestre noir, o franco americano Tourneur, de Out of the Past/Fuga ao Passado. Um homem dividido entre duas mulheres e preso a um amigo jogador que o arrasta a abismos periclitantes – já existe muito de Fuga ao Passado aqui. Mas cuidado – o título brasileiro, Paixão Selvagem, é o mesmo de Je t’Aime Moi non Plus, de Serge Gainsbourg.