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Cinecittà!

Luiz Carlos Merten

29 Maio 2015 | 14h42

ROMA – Aqui estou, há dois dias. Cheguei na quarta, encontrei meu amigo Dib Carneiro, que veio direto do Brasil. Ainda não vi nenhum filme – dois dias! -, mas hoje fomos a Cinecittà. O mítico estúdio número 5, no qual Federico Fellini rodou boa parte de sua obra – e foi velado em câmara ardente -, estava fechado. Timur Bekhmambetov filma ali sua versão de Ben-Hur. No número 5, a direção de arte construiu a casa do príncipe judeu. A visita abrange principalmente áreas externas, onde estão construídos cenários permanentes. O foro romano de Roma, a série norte-americana; o casario de Gangues de Nova York, que Martin Scorsese pensava reconstituir no Canadá, mas seu diretor de arte, Dante Ferretti, convenceu-o de que Cinecittà era o lugar; uma extensa locação simulando a praça central de uma cidadezinha medieval da Toscana. E a tudo isso chega-se cruzando um jardim no qual está semi-enterrada, na grama, a estátua de Vênus construída para o Casanova, de Federico Fellini. É como se fosse o salvo-conduto para se entrar no universo de sonho que só o cinema pode criar. As pedras da Roma eterna, tóc-tóc, são de papelão. Tudo muito interessante, mas minhas passagens preferidas do tour por Cinecittà foram os estandes em que programas especiais não param de passar. Why Cinecittà? Imagens do Duce, Benito Mussolini, visitando o set de Scipione l’Africano, de Carmine Gallone, primeiro filme rodado no estúdio que ainda estava em construção. No mesmo bloco, há uma sala Fellini, que mostra como os desenhos do grande diretor antecipavam sua visão dos filmes. O próprio Fellini fala. No telão, sucedem-se cenas emblemáticas de seus filmes. As mulheres de Fellini – Giuletta (Masina), Anouk (Aimée), Magali (Noel) e as outras. Em outro prédio, Presidential Building, é possível viajar por corredores que expõem figurinos que fazem parte da lenda – os de Senso, de Luchino Visconti, e A Megera Domada, de Franco Zeffirelli – e por telões dedicados ao spaghetti western e a nossos ‘monstros’ (os reis da comédia italiana) favoritos. Alberto Sordi numa cena de Uma Vida Difícil. O filme de Dino Risi voltou-me inteiro. Neste domingo, 31 de maio, Clint Eastwood completa 85 anos. Emocionei-me vendo o jovem Clint dando seu depoimento sobre Sergio Leone. Havia (re)visto Umberto D em Paris. Emocionei-me mais ainda com a homenagem a Roberto Rossellini e a seu De Crápula a Herói, que é, de todos os seus filmes, o ‘meu’. Vittorio De Sica, como um farsante cooptado pelos nazistas a encarnar o General dela Rovere para descobrir quem são os líderes da resistência, cola ao papel e, fordianamente, morre com glória. O cinema é uma coisa maravilhosa. Não precisava dessa ida a Cinecittà para lembrar, mas, com certeza, valeu.