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Cineaste nas bancas resgata Ford, Wayne e Chris Marker como crítico

Luiz Carlos Merten

27 de julho de 2018 | 10h09

Conta a lenda que John Ford e John Wayne conheceram-se em 1928, quando o ator, de 20 anos, se iniciava como extra, em Hollywoody, e o diretor, com 34 anos, se tornou seu mentor. Tomavam porres homéricos, mas Ford hesitava em dar papeis ao amigo porque queria que ele tivesse alguma dor escrita na cara para disfarçar o que lhe parecia a inocência do Duke. Quando Raoul Walsh fez de Wayne o protagonista de The Big Trail, em 1930, Ford sentiu-se traído e passou quase uma década ignorando o ator, só o chamando em 1939 para fazer o imortal Ringo Kid de Stagecoach, No Tempo das Diligências, quando Ford se transformou em Ford de verdade Seguiram pelos anos 1940, 50 e início dos 60 uma parceria que resultou em filmes clássicos. Wayne virou astro, campeão de bilheterias, e sempre apoiou o veterano diretor, permitindo-lhe com seu prestígio, seguir filmando. Mas Ford nunca deixou de hostilizar e humilhar seu agora patrocinador – fazia isso com todos o seu elencos – diante das equipes, detestando ter de reconhecer que foi com Howard Hawks, em Rio Vermelho, de 1948, que ele tornou um grande ator. Ford havia feito a guerra, e sua experiência, com a de outros diretores no front, deu um livro admirável. Five Came Back, os Cinco Que Voltaram. Wayne, pelo contrário, não prestou serviço militar e isso teria sido decisivo para sua virada à direita, após a guerra, quando já se convertera num ícone de masculinidade no cinema. Todas essas histórias são contadas num livro de Nancy Schoenberger que acaba de ser editado nos EUA. Li a resenha no número de Cineaste que chegou às bancas. America`s leading magazine on arts and politics of the cinema. O Vol. XLIII, No 3, Summer of 2018, ainda traz Frances McDormand na capa, Três Anúncios para Um Crime, mas o interior é recheado com análises muito ricas de Zama, de Lucrecia Martel, do filme de Emmanuel Finkiel inspirado nas memórias da guerra de Marguerite Duras, da obra silenciosa de Fritz Lang e de uma seleção das críticas de Chris Marker – sim, ele foi crítico – por Jean-Michel Frodon. Mas confesso que, de tudo isso, o que mais me interessou foram os novos livros. Howard Hawks – New Perspectives, uma coletânea de estudos editada por Ian Brookes, e Wayne and Ford – The Films, The Friendship and the Forging of American Hero, da já citada Nancy Schoenberger. A sessão de DVDs e Blu-rays também está ótima. Saíram novas edições do Tom Jones de Tony Richardson, do Jovem Mister Lincoln, de Ford, e das Mulheres Apaixonadas de Ken Russell. É um autor do qual não mais se fala no Brasil, mas que está sendo revisado na Europa e nos EUA. Muito interessante.

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