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Cine PE (8)/Ainda!

Luiz Carlos Merten

08 de julho de 2017 | 10h45

Estou brigando há dias com o recarregador do meu notebook. Havia pedido ao pessoal do Recife que me enviasse o que esqueci no hotel, mas agora não consigo me conectar com a Jana, da assessoria de imprensa do festival, nem com Amilton, que poderia trazê-lo. Comprei outro que não está funcionando muito bem. Enfim… Volto rapidamente ao tema do 21.º Cine PE. O júri integrado por meu querido Vladimir Carvalho deve ter feito uma ginástica enorme para dar só um prêmio, e secundário – melhor trilha -, para o melhor filme da competição, o mineiro Los Leones, de André Lage. Gostaria de acreditar que Vladimir foi voto vencido num júri democrático, como eu fui, no ano passado, em Brasília. Para mim, o melhor filme daquela edição foi o gaúcho Rifle, de Davi Pretto, mas meus colegas jurados não quiseram nem saber. Demos ao filme acho que o prêmio de som. Jesus! Comprei o número nas bancas de Film Comment, a revista da Film Society do Lincoln Center com Robert De Niro na capa, e só agora descobri que tem uma crítica bem elogiosa de ‘Rai-fel’. Jordan Cronk inicia – “Para criar seu provocativo novo filme, o diretor brasileiro Davi Pretto se volta tanto para o passado da região em que vive (o Rio Grande, acrescento eu) quanto para sua experiência pessoal.” E por aí vai… Também havia gostado muito, em Brasília, de um documentário – o de Alice de Andrade, Vinte Anos, em que ela volta a Cuba e reencontra os casais que filmou num curta realizado muitos anos atrás. Que personagens! Esse ficou com o prêmio de trilha. Para jurado não me pegam nunca mais – até me sondaram, recentemente, para ser júri num festival importante, mas… Nevermore! Mas, enfim, não é de agora que o júri do Cine PE comete desatinos. No ano passado, o júri integrado por João Batista de Andrade, a quem respeito (e admiro – Wilsinho Galileia é um dos grandes documentários brasileiros e A Próxima Vítima um policial muito melhor que qualquer um premiado no Recife este ano), loteou as Calungas. Melhor filme para Danado de Bom, melhor direção para As Aventuras do Pequeno Colombo, e ambos estão em cartaz em São Paulo. O prêmio especial foi para o melhor filme da competição de 2016, mas como se não estivesse muito convencido o júri atribuiu a Calunga não a Guerra do Paraguay, mas ao conjunto da obra de Luiz Rosemberg Filho e aí me lembro de ter escrito no Estadão – sorry, mas é pouco prêmio para muita obra. O pior é que o simples fato de ter ido polemizar no Recife este ano me faz alvo de piadinhas. Ontem, fui à cabine do Une Vie, de Stéphane Brizé – puta filme! -, e já tive de aguentar algo do tipo ‘Foste encontrar teu amiguinho Olavo (de Carvalho)…” Esse não fazia parte da minha galáxia, e continua não fazendo. Bye-bye. Aproveito para acrescentar que, todo ano, no Recife, me atualizo comprando os números do ano da revista Continente. Em relação a maio de 2016, ficou faltando só um – a revista é mensal – e eu confesso que lamentei muito o seguinte. Dois pontos. Dei uma folheada e li algumas matérias das onze edições que comprei durante o voo de volta (três horas). Ao chegar, naquela confusão de perder os documentos e cartões no aeroporto, não consegui me comunicar com Day Rodrigues, a diretora de Mulheres Negras, para lhe dizer que comprasse o número de fevereiro (de 2017) da revista, à venda no saguão do Cine São Luiz. O tema da capa é Europa e a situação atual do continente é analisada por autor inédito no Brasil, Camille de Toledo. Quem me segue sabe que fotos não são permitidas nesse blog, mas eu gostaria de abrir uma exceção. Vejam se localizam pelo crédito – Armend Nimani/AFP. Num campo de refugiados, presumivelmente, um pai com a cara transtornada carrega um menino que, encostado na sua cabeça, dorme o sono dos anjos, alheio a toda desgraceira ao redor. Nunca vi nada mais eloquente, talvez a foto do outro menino, morto, na praia, mas essa ainda fala de vida e a vida, como diz a ama, no final do Brizé, não é completamente boa nem completamente má. Queria, porém, recomendar à Day o número 194 da Continente porque traz encartado o suplemento Pernambuco. Na capa, A Protagonista. Ou de como os silenciamentos, no Brasil de ontem e de hoje, são representados em Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, que completa agora 10 anos. Imagino que a Day conheça a autora, mas se não… Ainda a Continente. Número 193, janeiro deste ano. 100 anos de samba. Cada um tem a referência que merece. Na Pernambuco, a capa é de Luiz Costa Lima. O Perigo da Teoria. Como pensador, frasista, sou mais o Costa Lima. Muito interessante o que o teórico diz sobre o ‘narcisismo’ dos gênios. Sobre a direita do Recife, chefiada por Gilberto Freyre. E sobre Temer. Olavo de Carvalho chama a esquerda de ignorante, e seu público adora. Costa Lima diz que a direita é burra e sempre termina por cometer um ato de desatino. Hitler, aquele celerado, tentou invadir a Rússia no inverno. Temer, diz o teórico, ainda não cometeu (até o momento da entrevista), em público, nenhum grande passo em falso, além, claro, de ter escrito um livro de poemas. ‘Mas, até então, um livro de poemas ruim não é motivo para que alguém perca o seu posto de poder…’ Maravilha, mas sei não – se não é. Rodrigo Maia, por exemplo, já anda confirmando seu ministério.