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Cine PE (6)/Visconti!

Luiz Carlos Merten

07 de maio de 2016 | 10h10

RECIFE – Gostei de Danado de Bom, o documentário de Deby Brennand que resgata João Silva, o parceiro menos conhecido de Luiz Gonzaga~. Talvez tenha gostado menos de que O Homem Que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira, sobre o mais conhecido Humberto Teixeira, mas, no fundo, ambos são celebrações da mítica figura de “Lua’, o homem que deu voz ao sertão. Achei lindo quando o próprio João diz que Gonzagão criou a cartilha do analfabeto, e ele usa outro termo, mas querendo dizer que o Velho Lua dava voz e sentimento ao que o sertanejo trancava no peito e não sabia expressar. Mas confesso que, para mim, a noite de sexta foi dominada pelo curta de Marcélia Cartaxo, Redemunho. Já disse que tive algumas epifanias aqui no Cine PE, com o Luiz Rosemberg Filho, Guerra do Paraguay, com o curta de Diego Zon, Das Águas Que Passam. Não vou dizer que tenha gostado tanto quanto, mas o tom decadentista e viscontiano do curta de Marcélia me derrubou, Luchino dizia que filmava para refletir sobre a decadência de sua família, sobre os Visconti de ontem, e hoje, com seus sonhos destroçados pela realidade, e que eram os personagens que ele conhecia e com os quais se identificava. Os 20 minutos de Redemunho compõem uma peça narrativa muito forte, romanesca no estilo viscontiano. Mãe, filho. A velha cultiva a herança aristocrática da família em ruínas. O filho amarga o abandono da mulher, que fugiu com um cigano, mas não – no final, ele escava o próprio passado, enlouquecido de dor porque a mulher pode ter fugido com seu irmão, o filho preferido da mãe, que lhe omitiu o fato a vida toda. A derradeira traição. O tema mais atual do mundo no Brasil – com o elogio, à Calabar, da delação. Rocco e Seus Irmãos – Rocco é um santo, mas Rosario prefere Simone, e acusa Nadia de haver destruído seu filho mais belo. Gostei muito do ator, da atriz. Numa cena, no curral vazio, o garoto dilacerado dá vazão a seus fantasmas no embate com uma boiada imaginária. Eia, boi! Daqueles 20 minutos só tiraria os 20 segundos em que a aranha invade a imagem, e que me parecem não apenas desnecessários, como destoantes dentro da dramaturgia carregadamente realista de Redemunho. Se Marcélia Cartaxo, eventualmente, me disser que aquilo é o centro da sua mise-em-scène, não creio que me convença. Vou terminar achando, como André Bazin na célebre polêmica com William Wyler por Pérfida/The Little Foxes, que o ‘meu’ filme (do dela) é melhor.