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Cine PE (5)/Tiro no pé?

Luiz Carlos Merten

03 de julho de 2017 | 09h39

RECIFE – Volto hoje à tarde para São Paulo. Tenho filme à noite e, amanhã, um compromisso no Rio. Ontem, com os debates e texto para o impresso, nem tive tempo para postar. Faço-o agora. Terminou. O 21.º Cine PE foi marcado pela crise, e ela talvez tenha delimitado o festival como espaço de debate e discussão. Criou-se a polaridade entre direita e esquerda, essa se ausentando porque o Cine PE estaria favorecendo os grupos que patrocinaram, segundo a própria interpretação do expoente do pensamento conservador brasileiro – Olavo de Carvalho, no filme de Josias Teófilo, O Jardim das Aflições -, ‘o golpe’. Houve boicote, tentativa de censura por parte dos realizadores que tiraram seus filmes, dos críticos que pressionaram para que não viesse(mos). Como consequência de tudo isso, a seleção foi fraca – a de longas, que ainda teve de ser completada com um média, O Caso Dionísio Diaz, na noite de ontem (domingo). A de curtas foi bem melhor, mesmo que alguns dos melhores filmes já tivessem sido exibidos (e premiados) em outros festivais. Não cabe crítica a isso, nesse momento, porque essa sempre foi uma norma do festival, aceita pelos jornalistas que até o ano passado cobriam o evento. Creio mesmo que o ineditismo, exceto local, só fez parte da pauta no período em que Rodrigo Fonseca fez a curadoria. O importante é que houve debate, e foi bom. O que o júri vai nos oferecer, na noite desta segunda? Quais serão suas escolhas? Eu, se fosse jurado, iria no contrafluxo. Seria uma premiação política e até underground – num festival acusado de ser de direita. Los Leones, de André Lage, melhor filme – não tem outro. Mulheres Negras, de Day Rodrigues (e Lucas Ogasawara), melhor curta nacional. E Soberanos da Resistência, de Marcus Vinicius Paiva Cunha, melhor curta pernambucano. Quero só dizer mais uma coisa, para encerrar esse post. (Farei outro, na sequência.) O antipetismo esteve na pauta deste ano, por conta da inclusão de O Jardim das Aflições na mostra competitiva. Isso, e mais o fato de Alfredo Bertini haver se alinhado com o governo Temer, produziu todo o imbróglio. De minha parte, na minha avaliação, acho que o festival deu o chamado tiro no pé. O Cine PE começou no pequeno, assumiu que queria ser grande, como evento de público – e atingiu seu apogeu, vejam a ironia, na era Lula e no primeiro governo Dilma, antes de sua paralisação no Legislativo e no Judiciário. O festival voltou a ser pequeno – ia escrever apequenou-se, mas seria desrespeitoso com André, com Day, com Marcus e com outros realizadores de curtas (Caio Baú, de Luiza, por exemplo), com Mário Bortoloto, que aqui está, com Borrasca, e cujo perfil também é muito mais underground que coxinha. Para o ano que vem, será preciso repensar a seleção. Mesmo numa opção de ‘mercado’, existem filmes melhores que muitos que foram exibidos aqui. E o ineditismo é importante, sim. Enterraria essa vocação de festival de segunda que os (hoje) detratores brandem como um troféu.