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Cine PE (5)/Cão sem dono

Luiz Carlos Merten

06 de maio de 2016 | 12h58

RECIFE – Ó, céus! Recebi um pedido de correção da produção do belo curta capixaba Das Águas Que Passam. O diretor chama-se Diego Zon e não Diogo Zen, como ando escrevendo. Ave, Diego, mas é que teu filme é tão ‘zen’ que acho que me induziu ao erro. Tivemos um bom debate dos filmes de ontem, agora pela manhã. Certos talvez estejam os colegas que evitam todo contacto com criadores. Eu quero acompanhar o processo como jornalista, informando, e depois criticar. Ainda bem que o diálogo é possível. Rodrigo Gava, diretor de As Aventuras do Pequeno Colombo, está tão cheio de esperança com as possibilidades de sua animação no mercado que detestaria ser o cara que enterrou o filme. E, além do quê, cada vez me convenço mais de que o cinema é uma experiência subjetiva. Vivi um momento epifânico vendo Guerra do Paraguay, mas falei com gente que simplesmente não gostou do filme de Luiz Rosemberg Filho. Outro me disse que viu ‘trocentos’ filmes como Das Águas Que Passam e eu só pergunto – onde? Qual, tirando Fogo no Mar? Prosseguindo nessa linha ‘cada um vê o que quer ou pode’, não consegui emplacar a entrevista com Roberto Gervitz nem a crítica de Prova de Coragem no Caderno 2. Tem faltado espaço. Peguei ontem um jornal daqui e havia uma matéria sobre a estreia do Prolva. Não era assinada, ou não encontrei a assinatura, já que vinha com outras notas. Mas o jornalista, seja lá quem for, dizia que o filme concorreu em Brasília e não levou nada. Estaria deslocado na competição e, para completar, seria um drama falso, com diálogos e interpretações artificiais. Neuza Barbosa me disse a mesma coisa quando elogiei Armando Babaioff no filme do Gervitz. Disse que eu estava louco. Mas a verdade é que gostei mesmo do filme que Gervitz adaptou de Mãos de Cavalo, de Daniel Galera. O livro é sobre jovens, Gervitz trouxe o drama para a idade adulta, mesmo que o trauma que consome o personagem de Babaioff, o Hermano, continue na juventude. Gervitz é um diretor que tende a ser metafórico, e é o que para mim, destrói Jogo Subterrâneo. Ele abre Prova de Coragem com uma imagem que também é uma metáfora, mas só descobrimos depois. A árvore real é destruída para ser reconstruída por Adri/Mariana Ximenes como arte (ficção). Um colega, que também é crítico de visuais, me disse que não consegue acreditar naquela artista. E daí? O problema é dele, não meu. Árvore pressupõe raízes e é do que trata o filme. Um casal dividido pela gravidez. O filho indesejado. Mas é indesejado mesmo? Às vésperas do Dia das Mães, com outros filmes que exploram a maternidade em cartaz – a comédia O Maior Amor do Mundo, com Julia Roberts e, uau, o título é o mesmo do drama de Cacá Diegues com José Wilker, de 2006 -, Gervitz conseguiu fazer um filme sobre a paternidade. Hermano/Babaioff usa suas mãos de cavalo contra ele mesmo e toda a ‘dramaturgia’ é construída para levar à cena magnífica e difícil em que o personagem, delicadamente, toma o bebê nas mãos. É de uma beleza de cortar o fôlego, pelo menos para mim, que sou pai. E o filme tem a figuração do ano. Li certa vez um texto de Roberto Rossellini falando sobre a importância do acaso. Na cena final, Hermano dispara na bicicleta, pressentindo que algo está dando errado. Gervitz filma com uma tele que achata o campo visual. UM cachorro atravessa a pista, e não dá para perceber, pelo achatamento da imagem, aonde ele está, com certeza. Mas é o cão sem dono de Daniel Galera, o tipo de personagem que atrai o autor. O cão foi o maior achado do mundo. Se tivesse sido pensado, não teria sido tão bom. As metáforas perseguem Gervitz. Nem sempre dão certo, mas, às vezes, são ótimas.