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Cine PE (4)/Sobre a importância de debater

Luiz Carlos Merten

01 de julho de 2017 | 16h29

RECIFE – Fui agora comprar o bolo de rolo – os – que me encomendaram e passei, mais uma vez, pelo prédio que abrigou a filmagem de Aquarius, como o apartamento de Sonia Braga no filme de Kleber Mendonça Filho. Chama-se Oceania e lá está, pintado de azul. Virou ponto de referência e atração turística aqui na orla de Boa Viagem. Já vi um monte de gente tirando foto no celular. Tivemos hoje um debate bem animado e consistente sobre o curta Mulheres Negras, de Day Rodrigues, que a própria diretora definiu como obra de militância. Day tem sido cobrada por sua declaração de que um homem não poderia fazer aquele filme, mesmo que Lucas Ogasawara o assine com ela. E tem razão. Um homem, mesmo branco, pode fazer um filme sobre mulheres negras, sobre a escravidão, sobre qualquer tema controverso, mas certamente não será a obra visceral, militante, ativista de Day. E é o que está em jogo aqui. Mulheres Negras – Projetos de Mundo está na mostra nacional e eu falei aqui outro dia sobre outro curta da mostra Pernambuco, do qual gostei muito. Soberanos da Resistência, de Marcus Vinicius Paiva Cunha. Um filme sobre o maracatu como expressão cultural, que sobrevive sem apoio nem patrocínio, na rua. Encantou-me ver, como no maracatu, as mulheres participam em pé de igualdade com os homens na parte da instrumentação. Empoderadas – por menos que goste da palavra. Daria um belo debate só sobre esses dois filmes, para mim os melhores curtas, como Los Leones, do mineiro André Lage, é meu melhor longa – até agora. O festival ainda não terminou. Day foi criticada pelo que alguém definiu como linguagem, acho que a expressão usada foi ‘chapada’. O filme mantém o mesmo formato em todas as entrevistas – as mulheres negras, sentadas, falam para a câmera. A potência é do verbo, do discurso. Day citou Eduardo Coutinho, e Coutinho intervinha mais, interagindo com seus entrevistados, mas também não fazia firulas com a câmera nem com a montagem. Lamento pelos que aqui não estão, porque estão se furtando a esses debates que têm sido ricos. O próprio pivô de toda essa confusão – O Jardim das Aflições, de Josias Teófilo, e só louco para negar que o filme tem qualidades; se vamos negar a palavra de quem discordamos, a coisa vai ficar muito pior do que já está – teve um debate bem civilizado, embora talvez um pouco viciado, porque tem uns personagens que aqui estão, Sérgio Sá Leitão, por exemplo, diretor da Ancine, que só deu as caras para debater o filme de Josias. Os demais, tem ignorado, o que acho muito estranho, mas, enfim, cada um com sua consciência. Aproveito para dizer que fui convidado para integrar o prêmio da crítica, mas já invoquei uma razão de consciência para não participar. Não integro a Abraccine, não aprovo o modelo de júri seletivo que ela estabeleceu com a conivência de todos os festivais brasileiros. Sou do tempo em que votávamos todos, e era uma forma de nos conhecermos. Não há de ser agora, sem Abraccine, que eu vou entrar no vácuo.