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Cine PE (3)/Das Águas Que Passam

Luiz Carlos Merten

05 de maio de 2016 | 13h23

RECIFE – Imerso no mergulho que Guerra do Paraguay me provocou, levantei-me hoje, fiz meu texto das estreias para o Portal e fui para os debates. É curioso. Muita gente fez a conexão entre o filme de Luiz Rosemberg Filho e O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman. As intersecções estão todas lá. Arte e guerra, indagações contemporâneas inseridas num auto medieval em Bergman e numa fábula intemporal em Rô. O soldado da Guerra do Paraguay ouve, mais que dialoga, (com) a artista. Mas eu confesso, e até falei no debate, que a minha conexão foi com O Cavalo de Turim, de Bela Tárr – são obras gêmeas, apesar das diferenças -, e com (pasmem!) Anahy de las Missiones, de Sérgio Silva. A primeira pergunta para Rosemberg foi sobre a influência de Brecht e ele disse que sempre quis fazer Mãe Coragem, mas havia o problema dos direitos. Sérgio Silva fez a Mãe Coragem dele, que atravessa os campos de guerra com aquela carroças, vivendo, com a família, de pilhar os mortos. Pode ser uma leitura totalmente minha, pessoal, mas a Carroça de Rosemberg traz para a contemporaneidade a de Sérgio Silva. É pena que meu amigo tenha morrido. Gostaria que ele pudesse ver Guerra do Paraguay. Tenho esse sentimento de saudade dos meus mortos com frequência. Tantos filmes que gostaria que Tuio Becker visse. Tuio era enjoado, irritava-se com frequência, mas era generoso e apaixonado em relação aos filmes, e são qualidades com as quais me identifico. Se gosto, quando gosto, vou ao inferno e enfrento o próprio Diabo para defender. Não falei dos curtas (longos – mais de 20 minutos cada) que antecederam Guerra do Paraguay, na terceira noite. Soberanos do Congo, de Raoni Moreno, passou na mostra Pernambuco; Das Águas Que Passam, do capixaba Diogo Zen, na nacional. Um documentário de entrevistas e outro não verbal. Soberanos do Congo é tradicional, mas tem um depoimento de um mestre de Olinda que me encantou. Ele fala das raízes africanas do maracatu, da sua filiação a Oxóssi, a Xangô e lembra que esse último não se separa de suas mulheres e elas são representadas pelas calungas (finalmente, entendi!) nos espetáculos de rua. Emocionei-me quando ele contou que só os iniciados podem tocar o atabaque, coisa mais linda. Veio-me todo o Jorge Amado que li. Tem sempre um terreiro, um atabaque na literatura do baiano. Das Águas Que Passam foi outra epifania. Nunca me senti tão dentro do mar. A imensidão da paisagem, o tempo ritmado nas ondas. E o conceito de Gianfranco Rosi em Fogo no Mar. Num dos raros diálogos de Das Águas, o pescador fala do que o mar dá e do que tira. Gianfranco, o próprio Rosi, disse a mesma coisa em Berlim e, depois, na entrevista que me deu. No filme dele, o mar entrega os refugiados – a dimensão social é maior. A tragédia dos refugiados é um mal contemporâneo. Mas em Diego Zen a dura labuta diária também está lá, o tempo todo, e alguém canta Carcará – ‘Pega, mata e come/Mais coragem do que homem.’ Com algumas decepções, inevitáveis em qualquer festival, o Cine PE está me surpreendendo bem. Tenho tido meus momentos na tela do São Luiz. E não posso deixar de anotar. O curta capixaba soma-se a outro curta do Espirito Santo, o (en)cantado +1 Brasileiro, de Gustavo Moraes. Não tenho ido ao Festival de Vitória, mas imagino, pelas amostras, que a cena de lá esteja bem interessante.