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Cine PE (3)/Um lugar de fala

Luiz Carlos Merten

02 de agosto de 2019 | 15h41

RECIFE – Há dois anos, na exibição de O Jardim das Aflições, o documentário de Josias Teófilo que venceu o Cine PE, havia gente pelo ladrão vestida de amarelo no Cine São Luis em homenagem ao filme e seu personagem (Olavo de Carvalho). Para assegurar a vitória do filme pelo júri popular, houve chamamento pelas redes sociais e o público acorreu. A surpresa creio que foi o prêmio pelo júri oficial. Nada como o tempo. Na nova configuração do Cine PE, um diretor de curta conclamou, na noite de ontem, os espectadores que lotavam o São Luiz a soltar o berro contra o atual estado de coisas no Brasil. De onde eu estava, no gargarejo – primeira fila -, foi maravilhoso. O público correspondeu, soltou o grito, que virou um portentoso… Lula livre! No palco do Cine PE, como disse a nova apresentadora, Nínive Caldas, os diretores são soberanos. Não gostei tanto da seleção de curtas de ontem à noite, que privilegiava o cinema de fantasia e horror – Coleção, de André Pinto; Guará, de Fabricio Cordeiro; Casa Cheia, de Carlos Nigro, etc – e creio até que o passeio pelo cinema de gênero condicionou meu olhar para o longa Um e Oitenta e Seis Avos, de Felipe Leibold, mas quero deixar registrado aqui que tivemos nesta manhã um debate muito bom. O próprio (co)curador, Edu Fernandes, tem conduzido os debates e acho que já é tempo de os coleguinhas voltarem porque nossas feministas de plantão, principalmente, estão perdendo seu lugar de fala. Na noite desta sexta teremos um dos filmes mais aguardados da seleção, o único sobre o qual já havia ouvido falar bastante, confesso – Espero Tua (Re)Volta, de Elisa Kapai, sobre os movimentos de estudantes de 2013 até o ano passado. Tem gente apostando que vai vencer o Calunga, será? Se isso se concretizar, será o quarto documentário a vencer de forma consecutiva o Cine PE, após Danado de Bom, o aflitivo Jardim e Henfil (no ano passado). Como tenho sido atuante nos debates, muita gente vem falar comigo. Me informaram – 1) que o curta de animação Apneia foi premiado no Anima Mundi; e 2) que o filósofo da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho, tomou a defesa de seu diretor e da Lei Rouanet, o que faz sentido porque Josias, afinal, quer fazer outro documentário, sobre a chegada da direita, isto, Jair e seus zeros, ao poder no Brasil. Já que citei duas vezes o palácio desse festival,o São Luiz, não posso deixar de assinalar. O palácio, apesar dos arabescos e dos vitrais maravilhosos, está meio caído. Acima do palco, à direita da tela, tem um rombo no teto que pode comprometer tudo aquilo. O São Luiz não é tombado? Imagino as dificuldades que o Cine PE possa ter tido, mas está mais que na hora de o festival cuidar de sua casa.

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