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Cine PE (2)/Ave, Rosemberg!

Luiz Carlos Merten

04 de maio de 2016 | 23h48

RECIFE – Vou passar rapidamente pela segunda noite do festival, a de terça, 3. Tive hoje um dia tão atribulado e ainda fomos, Neuza Barbosa, Ismaelino, Orlando Margarido e eu, almoçar na Oficina do Sabor, jerimum com camarão e lagosta, uma refeição dos deuses e que, com um bom vinho, joga a gente no nirvana. Fiz as matérias do Caderno 2 de amanhã, corri para o São Luiz, onde tive hoje, na terceira noite, uma epifania, mas conto daqui a pouco. Na terça houve um interessante programa de curtas. Um melodrama social todo (en)cantado, do Espírito Santo – +1 Brasileiro, de Gustavo Moraes, e eu viajei na concepção. Olhem que não gostei nada de Sinfonia da Necrópole, mas aqui é realmente outro departamento. Apreciei a homenagem que dois jovens pernambucanos fizeram a Ariano Suassuna, dando conta, em sucintos 13 minutos, da grandeza do autor em O Imperador da Pedra do Reino, o que não é pouca coisa. E gostei do ator de Minha Geladeiras É Um Freezer, de Pablo Polo, também de Pernambuco. O filme subverte um drama familiar (casal que mora com a mãe dele) por meio do fantástico do título – a geladeira enlouquece e congela tudo (os sentimentos?). O ator, como disse, é ótimo, Bruno Goya, mas não consegui entrar na fantasia. Também não fiquei muito convencido com a sátira política do novo longa de Bruno Safadi. O Prefeito é sobre um político que quer entrar para a história separando o Rio do Brasil. Bruno filmou nas ruínas do Rio que se prepara para a Olimpíada – a cidade virou um imenso canteiro de obras com data para terminar (daqui a dois meses). Gostei do ator, Nizo Neto, da trilha com som de britadeiras (a sinfonia atual do Rio), mas confesso que não entrei na viagem do meu colega Luiz Zanin, que viu no filme uma interpretação ‘glauberiana’ do Brasil. Menos, Zanin, menos. Peguei carona numa declaração do Bruno no debate – ele gostaria de chegar aos 90 fazendo grandes e pequenos filmes, como alguns autores que admira. Achei um filme menor, mas só consegui quantificar hoje com a epifania que experimentei diante do novo Rosemberg. Estou falando de Luiz Rosemberg Filho, radical com orgulho e que dedica o filme dele, Guerra do Paraguay, a Doutor Fantástico de Stanley Kubrick, e Os Carabineiros (Tempo de Guerra), de Jean-Luc Godard. Genial. Nunca vi ninguém fazer dedicatória a um filme. Um soldado da Guerra do Paraguai cruza com duas mulheres que integram uma trupe de teatro nos dias de hoje. Mãe e filha. A mãe solta o verbo num discurso conceitual contra o capitalismo e a guerra – arte contra a barbárie -, e Rosemberg, fiel a Kubrick e Godard, mas, acima de tudo, fiel a si mesmo, termina seu filme com uma daquelas colagens de que só ele possui o segredo. No final, encontrei o velho. Foi tocante – me disse ‘Bonito, né?’ Respondi o que podia, na hora. ‘Não sei nem o que vi, mas estou chapado.’ Continuo (chapado), mas já começou a decantação. Guerra do Paraguay está me parecendo a coisa mais impactante que vi no cinema brasileiro e talvez mundial, em muito tempo. Rosemberg disse que seu filme não se assemelha a nada que a gente esteja vendo. Não se assemelha mesmo. Talvez tenhamos de criar novos conceitos e parâmetros para dar conta da genialidade da obra. Ave, Rosemberg!