As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cine PE (2)/Tempo para repensar

Luiz Carlos Merten

01 de agosto de 2019 | 15h15

RECIFE – O Cine PE, que já foi o festival mais popular do Brasil, virou maldito quando, há dois anos, deu uma guinada para a direita. Essa é a interpretação da maioria da crítica. Em 2017, havia uma seleção muito diversificada de curtas, debates ótimos, mas ganhou o Jardim das Aflições, o longa de Josias Teófilo sobre o (soi disant) filósofo Olavo de Carvalho, mentor dessa gente que tomou o poder no Brasil. O festival havia sido inaugurado por Real – O Plano por Trás da História, cujo produtor é o novo secretário (anunciado) do Audiovisual. O Cine PE foi execrado por se filiar “a um discurso partidário alinhado à direita conservadora e a grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016”, conforme carta aberta de realizadores em 10 de maio daquele ano. A seleção de longas não estava boa, mas a de curtas tinha filmes sobre negros, a questão da mulher, dos e das trans, cujos autores e autoras meio que gritaram no vazio, porque o boicote de boa parte da imprensa ao evento, senão esvaziou os discursos, esvaziou a repercussão. Sou do tempo em que o importante era como as coisas repercutiam na imprensa, jornais ou TV. Hoje, vivemos o domínio das redes, onde qualquer fake news se multiplica extraordinariamente, antes que as pessoas tenham tempo de refletir sobre o que leram e viram, e a maioria nem quer refletir mesmo. Alguns curtas aqui no Recife já estiveram no Olhar, de Curitiba, no Anima Mundi, outros estão estreando aqui. São bons, muito bons, ótimos. Um curta sobre um garoto albino, o Kauan – Cor de Pele, de Lívia Perini -, provocou a maior sensação, mas acho que seria injusto não citar A Pedra, de Iuli Gerbase; Quando a Chuva Vem?, de Jefferson Batista, uma animação em stop motion que me tocou muito; Obeso Mórbido, de Diego Bauer e Ricardo Manjaro; Apneia, outra animação, de Carol Sakura e Walkir Fernandes, muito bem recebida no Olhar; e Sobre Viver, de um coletivo daqui de Pernambuco; isso para não falar de É Difícil Te Encontrar, cuja diretora, Sabrina Menedotti, foi muito aplaudida ao fazer, no palco do Cine São Luiz, uma performance em defesa da Ancine, do corpo das mulheres e contra o ‘coiso’. Na sequência, veio o longa da noite, Vidas Descartáveis, de Alexandre Valenti e Alberto Graça, um documentário – forte – sobre trabalho escravo no Brasil e o retrocesso que o País está vivendo em políticas sociais, com direito a novas críticas, no palco e na tela, a Temer, Bolsonaro (e até aos governos do PT). O Cine PE está sob nova curadoria – de Edu Fernandes – e, pelo menos no meu primeiro dia, ontem, o terceiro do festival, já fiquei muito feliz de estar aqui, participando desse momento. Se o festival é arrependido, ou não, não é o caso (agora). O importante é reverter a má fama, até em respeito às pessoas que estão mostrando trabalhos críticos, e estética, politicamente, defensáveis (do meu ponto de vista).

Tendências: