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Cine PE (1)/Chegando…

Luiz Carlos Merten

29 de junho de 2017 | 10h47

RECIFE – Cá estou. Cheguei ontem, depois de ter perdido a abertura, na terça. Queria muito ver o filme de Rodrigo Bittencourt sobre o real, que perdi em São Paulo, até porque gostei de Totalmente Inocentes, que ele fez antes, mas a crise de labirintite me levou ao médico. Dr. Eduardo Mutarelli me curou com uma chave de cabeça – minha colega Regina Cavalcanti me perguntou se, por acaso, ele é o neurologista de Bagé? Enfim, cá estou. Imaginava que ia assistir a uma batalha campal na noite de ontem, primeira da competição, quando foi exibido o concorrente que, como o filme do real, foi pivô de toda essa confusão. No começo de maio, os diretores de curtas da competição retiraram seus filmes, e o festival foi adiado, em protesto contra obras que, segundo eles, favoreceriam “um discurso partidário alinhado à direita conservadora e a grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016”, conforme carta aberta em 10 de maio. Sou totalmente contrário ao golpe, que foi, mas não compactuo com essa tentativa de censura, que também é. Ninguém aqui é troglodita que não possa debater ideias, e o que esse tipo de atitude favorece é a radicalização. Pelo que me contaram hoje no café da manhã, o produtor de Real/O Plano por Trás da História – o diretor não veio – fez um discurso antipetista recebido com muitos aplausos e muitas vaias, essas incrementadas pelos nossos já conhecidos gritos de ‘Fora, Temer’, mas disso podemos desistir. Temer grudou feito carrapato no posto e governa o estritamente necessário – a política das alianças- para se manter atarraxado. Como seu plano econômico (é mesmo dele?) serve ao empresariado, vai ficando. Enfim, O Jardim das Aflições. Ouvi, também hoje, a explicação, bastante razoável de que a direita comprou a lotação do Cine São Luiz, depois de haver financiado, por meio de fundcrowding, o longa (não tão longo, 80 e poucos minutos) de Josias Teófilo. Faz sentido. O Jardim das Aflições teve uma apoteose. Ouvi alguns gritos de ‘Fora, Temer’, mas isso até o polêmico retratado, Olavo de Carvalho, também gritaria. Achei o filme bem feito. Daniel Aragão, que me ofendeu pessoalmente – e eu deveria odiar aquele cretino? -, fotografa e até monta bem (melhor que os filmes dele). Não creio que O Jardim das Aflições não dê conta da persona de Olavo para quem não o conhece. As informações que recebi me bastaram. Devo dizer logo que esse senhor não faz parte da minha galáxia. Não leio seu site, não tenho muito interesse por suas ideias, embora algumas, contradição em termos, sejam bem interessantes. O filme tem o que, para mim, é a imagem reveladora. Wagner Carelli entrevista o filósofo, ia colocar entre aspetas, mas seria preconceito. Olavo ocupa o campo, corta, vai para Wagner e, ao fundo dele, vemos a plateia. É a família de Olavo, mas ele está ali dando o que não deixa de ser sua master class. A mulher é uma figura – do lar. E Olavo é cabotino – diz que a embeleza com seu amor. O cinema intervém, cenas de Ivan o Terrível, No Tempo das Diligências, Aurora, Limite. Gostei do que Olavo diz sofre o clássico de Ford, sobre o western, e acho que, na estrutura do filme, entra melhor que os demais. Mas não gostei do filme. Digo, de O Jardim das Aflições. Como se deveria fazer o retrato de um polemista? Imagino que polemizando com ele. Não é caso de Josias Teófilo, que deixa aos outros o encargo de chutarem a bola nos pés de Olavo para ele fazer o gol. O próprio Olavo não me pareceu nem um pouco belicoso. Mas não pude deixar de pensar em Paulo Francis. Explico – Olavo de Carvalho mostra sua biblioteca. ‘Tudo isso aqui é sobre comunismo.” Diz que leu tudo e faz piada – ‘Se os comunistas também tivessem lido, deixariam de ser.” A ‘direita’ reunida no Cine São Luiz riu ruidosamente. De minha parte, acho que, por mais espirituoso que seja Olavo, como frasista, ele sabe o público para o qual está falando. Representa. Volto a Paulo Francis, que também vivia na ‘Corte’, mas era mais mordaz. Nos anos 1960, para assinalar a diferença entre Jean-Luc Godard e Ingmar Bergman, dizia que Bergman havia lido os livros que Godard citava, embora esse último tivesse ficado nas orelhas. Exponho-me, e poderei ser crucificado pelo filósofo e seus tietes – o melhor é me ignorarem -, mas creio que ele não leu tudo aquilo, não. O discurso, no fundo, é superficial demais. Gostei mesmo foi de sua interpretação do impeachment de Dilma Roussef. Será que seus seguidores, essa direita, dão-se conta? Olavo diz, acho que literalmente, que o impeachment foi um ‘prêmio de consolação da “elite governante’. O povo estava contra o PT, a grande mídia e a roubalheira, que, para ele, são a mesma coisa. Sem conseguir acabar com nenhum, acho que estarei sendo textual, “você tira uma pessoa e deixa os outros no lugar. É um prêmio de consolação que a própria elite governante ofereceu pras pessoas. Olha, nós te oferecemos a cabeça da Dilma e você nos deixa aqui no lugar.” Confesso que me pareceu bem original como tentativa de interpretação do que houve no Brasil.

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