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Cine OP (2)/E o amor pelo vigilante segue intacto

Luiz Carlos Merten

25 de junho de 2016 | 19h05

OURO PRETO – Cheguei ontem, sexta, 24, como já contei, e à tarde havia dois seminários muito interessantes. O primeiro, Imagens Vivas de um Brasil interditado, era sobre como o cinema brasileiro refletiu sobre o golpe, o anterior, a ditadura cívico-militar, a partir de 1976, naquele período até 1985, por aí, quando se inicia a Nova República. Dei meu pitaco lembrando um filme para mim emblemático – Marília e Marina, de Luiz Fernando Goulart -, que coloca na tela o mal-estar que se estava sentindo (que eu sentia) na época. Hernani Heffner, conservador chefe do MAM, do Rio, agregou O Anjo do Mal, de Walter Hugo Khouri, como outro filme que, no mesmo período, também expressa esse ‘incômodo’, como ele preferiu dizer. Na verdade, cada um terá suas memórias e preferências, mas para mim o filme emblemático dos anos duros, um pouco antes, talvez seja um que parece desvinculado da época e considero visceral – A Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura. A cena em que as travas que compõem o séquito da Diaba (Milton Gonçalves) torturam Odete Lara ficou indelevelmente gravada, a ferro e fogo, na minha lembrança. Hoje talvez seja incorreta, não sei nem quero saber. Aquilo é forte, muito forte, e é o que importa. Aliás, entendo, mas acho uma loucura que se viva hoje essa ditadura semântica do que pode ou não pode. Escrevi no meu texto sobre A Despedida – e sempre me surpreende como é alta a rejeição de colegas críticos ao filme de Marcelo Galvão – que o longa dele anterior era sobre downianos e criou-se uma polêmica. Não se pode mais usar a palavra e o problema é que ninguém sabia qual é o correto. Jesus! Fiquei empacado naquilo uma boa meia-hora naquilo – 15 minutos, vai, o tempo do meu texto de capa com a entrevista de Bill Pullman – enquanto Regina Cavalcanti, redatora do Caderno 2, pesquisava. Ave! O outro debate veio na sequência e foi sobre a influência recíproca de cinema e TV, com dois cases. O Vigilante Rodoviário, a série pioneira de Ary Fernandes, no começo dos anos 1960, e a Casa de Cinema de Porto Alegre, com o telefilme Doce de Mãe, que depois virou série (na Globo). É impressionante como, tanto tempo depois, Carlos Miranda, o próprio vigilante, permanece uma referência (e inteiraço nos seus 80 e tantos anos). Houve, na praça central de Ouro Preto, ao ar livre, a projeção de três episódios – O Diamante Grão Mongol, A História de Lobo (Lobo!, o cão mítico) e Aventuras em Outro Preto. Por toscas que sejam as lutas, os episódios são lindamente fotografados (em película) e ouso dizer que a estética é neo-realista. Sentou-se do meu lado uma senhora que cantarolava o tema musical. Esse afeto pelo vigilante é coisa que toda uma geração carrega, seja por ter visto a série na TV, ou no cinema (como eu). E hoje, sábado, 25, houve mais um debate, Os Deserdados da Nova República, sobre a produção nacional durante o primeiro governo civil, pós-ditadura. Confesso que não consegui me interessar muito pelo que foi expresso pelo pensamento acadêmico na mesa. Não concordo com quase nada que foi dito sobre Nunca Fomos tão Felizes, de Murilo Salles, outro de meus filmes emblemáticos, nem sobre A Cor do Meu Destino, de Jorge Duran, e Feliz Ano Velho, de Roberto Gervitz, mas fiquei impactado pela participação de Edgard Navarro, que fez uma releitura muito rica, propondo o que considero quase um novo cânone para Glauber. Lembram-se da frase famosa – ‘Estão confundindo minha loucura com minha lucidez’? O que falta no Brasil de hoje, e não só no cinema, é alguém com autoridade para enfiar o dedo no focinho e peitar toda essa canalha comprometida que se arvora em virgem no bordel. Glauber seria suficientemente louco, e lúcido, para fazer isso e ainda tomaria dinheiro do Meirelles para um novo filme. Teria valido vir ao Cine OP só pelo Navarro. O cara, que adora um palavrão, como eu, é f…!

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