As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cinco letras que choram

Luiz Carlos Merten

26 de dezembro de 2012 | 08h34

Estou de volta na redação do ‘Estado’. Foi um bate/volta rapidinho em Porto, para o aniversário da Doris (dia 23) e o Natal em família. Fomos e viemos, Lúcia e eu, pela Azul, viagem tranquila, mas não é mole pegar a estrada e, de Campinas para São Paulo, ontem à tarde, enfrentamos o trânsito de volta de feriado. Cheguei e a Leo, minha colega, olhava as fotos do velório de Dona Canô. Não sendo, ela própria, uma figura de peso da cultura, como os filhos Caetano e Bethânia, Dona Canô teve um papel importante, não só na vida deles, mas na de outros figurões da MPB (Gil?). E eu adorava quando ela aparecia nos filmes, quando cantava com eles. Existem imagens de ‘Música É Perfume’, de Georges Gachot, e ‘Coração Vagabundo’, de Fernando Andrade, que são pura magia por conta a figura matriarcal de Dona Canô. Ela chegou aos 105 anos. Concorria em longevidade com Oscar Niemeyer e os dois foram-se juntos, ou quase. Já devo ter contado, mas meu pai morreu cedo – eu não tinha dez anos – e, minha mãe, embora tenha chegado aos meus 20 e poucos, passou seus últimos anos entrevada (e privada da fala). Não conheci meus avós – paternos nem maternos. Creio que isso definiu o tipo de ligação um pouco distanciada que tenho com minha família, com meus irmãos. Eles permanecem em Porto Alegre e eu os vejo raramente, mass me preocupo o tempo todo por eles. Preciso saber se estão bem. E eu gostei que a Marli estivesse no Teatro Renascença (com o marido, João), quando recebi meu ‘felizardo’). De volta a Dona Canô, ela se foi no Natal, como Charles Chaplin. Foi a primeira coisa em que pensei. Impressionou-me muito que o imortal criador de Carlitos tivesse morrido nesta data (em 1977). Embora vivamos num País tropical, o Natal é uma instituição dickensoniana no nosso, no meu imaginário, e não há nada mais (Charles) Dickens do que o combate solitário de Carlitos contra a usura, a falsidade, bem como a sua ligação com as crianças e os animais. Deliro, eu sei. Dona Canô escolheu a data, ou foi por ela escolhida. Não quero invadir a privacidade de ninguém, mas as fotos – de Bethânia, de Clara, de Caetano – estão todas na rede. As fotos de Rodrigo. De todos os integrantes da família, é quem mais me fascina – é um personagem felliniano, um vitelloni, e assim o mostrou o próprio Caetano em ‘Cinema Falado’. Uma família de música e cinema. As fotos de Rodrigo me tocaram de uma maneira muito particular. Sua dor me remeteu, de alguma forma, à figura de John Cazale desamparado em ‘O Poderoso Chefão’. O mais frágil do clã – mas como posso ousar dizer isso? Dona Canô adorava aqueles grandes cantores – Orlando Silva, Carlos Galhardo, Francisco Alves. Esse último canta agora em meus ouvidos. ‘Adeus/adeus/adeus, cinco letras que choram…’

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.