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Cimino, Abbas e Hector… Señor, ten piedad de nosotros!

Luiz Carlos Merten

14 Julho 2016 | 23h47

Vocês vão estranhar que esteja lembrando o Kyrie da Misa Criolla de Ariel Ramirez, mas na minha cabeça faz sentido. Na capa do Caderno 2 de amanhã, nas repercussões sobre a morte de Hector Babenco, há uma declaração de Walter Salles que me fez pensar. (Provavelmente vou ganhar uma inimizade por isso, mas existo, logo penso, e ainda sou pago para isso). Waltinho lamenta a morte de Hector, após a de Abbas Kiarostami, e diz que as duas representam um empobrecimento para o cinema, alguma coisa por aí. Não discuto a validade da afirmação, mas pensei, cá com meus botões, e o Michael Cimino? Tem um garoto do Guia do Estado, o Divirta-se – ele vai me matar por haver esquecido seu nome -, que vai na contramão de Walter e todo dia, quando passo por ele, a caminho de minha mesa, me diz que Cimino é (muito) maior e mais importante que Kiarostami. Vai nisso certa provocação, e talvez uma acusação, porque enterrei Kiarostami no jornal, mas não Cimino. Esse último será lembrado, até o fim dos tempos, como o diretor que levou à falência a empresa United Artists e por um tantin, falando mineirês, não arrastou junto Hollywood inteira. Só que o filme que provocou a hecatombe está longe de ser um fracasso estético e, pelo contrário, era uma obra-prima adiante de seu tempo, há apenas 30 e poucos anos atrás. O grande problema é, na sequência de O Portal do Paraíso, o filme do qual falo, Cimino virou maldito e não teve mais condições de seguir trabalhando como vinha até então. Foi o preço a pagar e ele, que havia feito dois grandes filmes, o citado Portal e o anterior O Franco-Atirador, teve o seu desenvolvimento artístico truncado. Nunca saberemos o que Cimino teria feito, se tivesse prosseguido na via desses filmes caudalosos, e grandiosos, e com a liberdade de que dispunha. Mas ouso pensar que ele nos surpreenderia, e muito. Cimino pensava grande, a História com maiúscula. Kiarostami, não é que fosse um pensador ‘menor’, mas seu arco era mais intimista e reduzido, mesmo que suas pesquisas estéticas, com as ferramentas das novas tecnologias, o colocassem na linha de frente das mudanças que vêm marcando o cinema no século 21. Confesso que me incomodou que Waltinho tenha ignorado Cimino, colocando-se, talvez, numa perspectiva de classe. Cimino, em seus melhores momentos, fez o cinema da classe operária – os metalúrgicos de O Franco-Atirador -, denunciando, no Portal, as oligarquias (grandes proprietários e banqueiros) que massacraram, não apenas os índios, mas os colonos, durante a epopeia da conquista do Oeste, que ele se esmera em desmistificar. Kiarostami foi, sim, uma perda. Babenco, idem, mas não esqueçamos Cimino, sob pena de estarmos cometendo outra injustiça com ele. São tantas perdas… Só espero que, enquanto isso, estejam nascendo os grandes artistas de amanhã. E se por acaso alguém quiser ouvir a Misa Criolla, e o Kyrie, o You Tube tem a versão dos Fronterizos e a do José Carreras. Não consigo definir qual me emociona mais.