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Cidade dos sonhos

Luiz Carlos Merten

18 de junho de 2015 | 13h24

LOS ANGELES – Havia escrito meu texto anterior ontem à noite, de um jorro. Estou quatro horas atrás de vocês, mas algumas pessoas já leram. Imagino que meu amigo Dib e a diretora da peça dele, Kika Freire, possam ser dois desses leitores. Sugiro que leiam de novo. Ao fazer a revisão do texto terminei fazendo alguns retoques. Por isso não gosto de reler o que escrevo. Produzo muito, mas se fosse reler o que, em geral, sai num transe minha ‘obra’ de crítico e jornalista seria um eterno work in progress. Não comentei com o Dib nas nossas minimalistas conversas sobre a montagem (e o texto) antes da minha viagem, mas por motivos óbvios – o tema da perfeição -, o ‘recitativo’ dibiano sobre a atenção acordada às mãos em Pulsões mexeu muito comigo. Ontem, a sessão de Magic Mike XXL foi no Chinese Theatre, em pleno Hollywood Boulevard. Havia muita gente na Calçada da Fama – incontáveis japoneses. Muitos casaizinhos de namorados e é curioso como elas se ajoelham na calçada e eles tiram as fotos das parceiras sempre, ou quase sempre, apontando as estrelas de mulheres sexys. Marilyn, Cameron (Diaz). Havia até fila na estrela da Cameron. Quarentona sexy… Volto ao tema das mãos. Existem muitos clones de gente famosa por aqui. Homens e mulheres se maquiam e ficam iguaizinhos a figuras emblemáticas para que os turistas tirem foto com… Marilyn, Charles Chaplin, Elvis, Superman, Mulher-Maravilha. Tem o homem que enrola suas cobras nos corajosos, o outro que pendura seus papagaios que parecem saídos das animações de Carlos Saldanha (Rio e Rio 2!) nas pessoas. E ontem havia, cruzando suas unhas afiadas, Wolverine e Edward Mãos de Tesoura. Gostava de Tim Burton na época de Edward, de Ed Wood. Edward também mexeu comigo. O homem que criava beleza com suas mãos de tesoura, mas não podia acariciar com elas. Pirandello enlouqueceria na Calçada da Fama. Muitos (demais) personagens em busca de um autor. No imaginário do público de todo o mundo, Hollywood representa o que há de mais dourado no sonho americano – sucesso e dinheiro. Por isso mesmo, as pessoas atiradas nessa calçada, e são legiões, me doem. Já havia falado num post anterior, há muito tempo, sobre um homem muito bonito, mas sem as duas mãos, que vi aqui. Sujo, o olhar atormentado. Não minto ao dizer que aquele cara volta e meia irrompe em minhas fantasias. O que terá ocorrido com ele? Nunca mais o vi, mas ontem vi uma mulher, uma negra, com o corpo deformado e também sem as duas mãos. Mas ela estava numa cadeira de rodas e alguém cuidava dela. Um cara lhe dava água com canudinho, secava o excesso que escorria dos lábios. ‘Só o amor salva alguém da loucura.’ Minhas curtas temporadas por aqui me colocam sempre no limiar do sonho, da realidade, da loucura. Cidade dos sonhos, como definiu David Lynch. Mas, para quantos sonhos realizados, quantos…. desfeitos?