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Cibele Forjaz me deixou em choque com Os Um e os Outros

Luiz Carlos Merten

08 de setembro de 2019 | 23h08

Falei outro dia com o Diego, da assessoria de imprensa do Sesc Pompeia, sobre uma mostra de teatro italiano que deve ocorrer no começo de outubro. Aproveitei para perguntar o que ia substituir o Auto da Compadecida de Gabriel Villela e ele me disse, Os Um e os Outros, sem entrar em detalhes – talvez pensando que eu já soubesse do que se tratava -, mas acrescentando que era uma peça sobre os povos ameríndios do Brasil. Fiquei com aquilo na cabeça e, como pretendo passar o fim de semana que vem no Rio, passei hoje pela manhã no Sesc 24 de Maio e comprei ingresso. Vi agora no fim da tarde, ainda estou em transe. Os Um e os Outros é uma livre adaptação de um texto de Brecht, Os Horácios e os Curiácios, numa parceria das Cias. Livre e Oito Nova de Dança, com direção geral de Cibele Forjaz. No texto de apresentação, no programa, Cibele conta que iniciou em 2017 o estudo da atuação épica dialética de Brecht, arriscando uma aproximação com o perspectivismo ameríndio, com vistas à criação de um épico brasileiro. No ano seguinte, fez um doutorado de antropologia que a levou a viajar, por nove meses – a duração de uma gestação – pelo Rio Xingu, estudando a morte como forma de resistência nas culturas dos povos Araweté, Yudjá e Kamayurá. Tudo isso aprofundou nela um sentimento que se iniciara com a aproximação e a pesquisa do universo guarani M’bya e que já havia inspirado a intervenção urbana Esquiva e o espetáculo Juruá. O original de Brecht pertence às chamadas peças de aprendizagem do autor e o espetáculo, belíssimo, tem tudo a ver com o momento atual do Brasil, com a forma como o governo de Jair Bolsonaro está tratando as questões indígena e da Amazônia. A montagem, de aproximadamente duas horas, funde canto, dança, tecnologia de ponta – tem um momento em que a luz faz um desenho no palco, coisa de louco -, mas no centro de tudo está, soberana, a palavra, o Verbo, chamando à consciência. No prólogo, os atores falam de suas motivações profundas para embarcar no projeto, e no epílogo a índia guarani, tomando a palavra, dirige-se aos juruás (homens brancos) do bem, para que juntos lutemos contra a voracidade capitalista que está devorando a floresta. Toda a construção do espetáculo – a estratégia de fuga do escudeiro Horácio, que luta por sua terra (e liberdade) na última batalha contra os Curiácios, que querem a terra por suas riquezas, na peça de Brecht – me fez lembrar a árvore da vida de Avatar (e o chefe militar que vem para destruí-la, na fantasia de James Cameron), mas principalmente a abertura de Medeia, de Pier-Paolo Pasolini, quando o centauro comunica ao jovem Jasão esse sentimento de que tudo é santo, e a natureza é sagrada. Saí do Sesc Pompeia e fui jantar no Almanara do shopping ali do lado (o Pompeia). Li um pouco do programa e, num anexo – Textos de Trabalho -, encontrei: 1) a frase que mexeu comigo, ‘Para sermos capazes de resistir nós temos de nos transformar em floresta (e resistir como floresta); e 2) o texto Um Dilema Espiritual, de Ailton Krenak, em que ele discute justamente a resistência a que se aplique à natureza o conceito de ‘sagrado’. Para os que querem destruí-la, a natureza pode ser tudo (fonte de renda),. menos sagrada. Talvez Os Um e os Outros exija um público especial – de esquerda? -, com uma sensibilidade aguçada, mas eu achei deslumbrante, ao contrário do Macunaíma de Bia Lessa, com o qual tem pontos de contacto – a antropofagia -, mas que, no outro espetáculo, não me satisfez. Os Um e os Outros permanece mais duas semanas, até 22, em cartaz no Sesc Pompéia. Só posso convidá-los para que vejam. Já vi coisas muito boas, que me encantaram, este ano, mas como essa montagem, nenhuma.

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