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Chuva de ‘Matraga’ não é propaganda de Marlboro

Luiz Carlos Merten

26 de setembro de 2015 | 13h14

Meu editor, Ubiratan Brasil, sabe que amei o Matraga de Vinicius Coimbra e que o longa adaptado do conto de Guimarães Rosa pode muito bem puxar minha lista de melhores do ano. Se fosse feita hoje, cinco ou seis (seis!) dos meus dez mais seriam brasileiros, isso porque gostei muito de A Travessia, o tributo de Robert Zemeckis às torres gêmeas, mas ainda não estou muito seguro de colocar o filme no mesmo plano de American Sniper e Mad Max – Estrada da Fúria, que são meus gringos entre os melhores, mais os dois latinos (Casa Dentro e Numa Escola de Havana). Mas o Bira, dizia, me provocou. Disse-me ontem que Inácio Araújo deu a cotação regular para o Matraga de Coimbra. Pergunto-me, com todo respeito pelo Inácio, que foi (com a mulher) uma presença muito querida na minha festa de aniversário, que cotação ele dá para o Matraga de Roberto Santos, de 1965? Ótimo? Tão fácil, para o pensamento acadêmico, cerrar fileiras na apreciação dos ‘clássicos’, ou assim considerados. Conversei sobre isso, no outro dia, com Adhemar Oliveira. Há um pensamento crítico, e perverso, que reza perla cartilha marqueteira do velho Peter Bogdanovich, que, por volta de 1970, dizia que todos os bons filmes já haviam sido feito (mas, no fundo, esperava que incluíssem alguns dele no rol dos maiores). Escrevi um livro para contradizer a tese de Eric Hobsbawm de que a cena da escadaria de Odessa, do cultuado O Encouraçado Potemkin, é a mais influente do cinema, em todos os tempos. Já foi, mas tenho para mim que foi substituída pelo assassinato de Marion Crane naquela ducha, em Psicose. E é curioso que, depois do meu livro, que, obviamente, circulou num meio limitado, e apenas no Brasil, não exatamente Psicose, mas outro Alfred Hitchcock, Corpo Que Cai/Vertigo, tenha derrubado Sergei M. Eisenstein, ‘Potiômkin’, do posto de melhor filme de todos os tempos, que, tradicionalmente, alternava com Cidadão Kane, de Orson Welles. A autopsia do (norte)americano como imperialista, Kane, continua entre os melhores, mas me pergunto se a atual rejeição a Potemkin não terá nada a ver com a derrocada do comunismo, sistema econômico/ideológico do qual o filme sempre foi a principal peça de propaganda – a ponto de um crítico respeitado e respeitável como Walter da Silveira perguntar-se se a obra-prima de Eisenstein não terá sido a maior (a única?) grande realização comunista? Tergiverso, mas volto ao Matraga de Coimbra. Não li a crítica de Inácio Araújo, mas tentei ler uma que saiu na internet, num desses sites, ou blogs. O autor compara as cenas da doma, ou do resgate do cavalo em ambos os filmes e prefere a de Roberto Santos, o que é um direito seu, mas me ofende ao dizer que a de Coimbra, sob a chuva, parece propaganda (daquela marca de cigarro?Terra dos homens?). A cena de Coimbra marca o momento em que o endemoniado Matraga de João Miguel recupera sua alma. A chuva, a água, lavam seus pecados, e ele ressurge como um outro homem, como Marion Crane tentava lavar os dela naquela ducha e a tragédia é que, ao invés da sonhada purificação, Marion encontrava o punhal de… Haverá quem ainda não saiba quem é o assassino do Bates Motel? No épico de Coimbra, um raríssimo filme de gênero brasileiro que assimila lições do western como do Cinema Novo – na trilha de Sam Peckinpah como na de Glauber Rocha, e Villa-Lobos não está ali por acaso, como também não é nenhuma coincidência que esteja no Macbeth do diretor, A Floresta Que Se Mover, que já vi -, o (anti?) herói se redime a vai pro céu a porrete. Não se privem desse sentimento. É sublime.