As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Christiane Jatahy e a nova Regra do Jogo

Luiz Carlos Merten

04 de junho de 2017 | 06h56

PARIS – Tenho visto tanta coisa, feito excursões. Não tem sobrado tempo para o blog. Mas quero falar sobre uma coisa importante. Há um momento mágico em La Règle du Jeu, a releitura do clássico de Jean Renoir por Christiane Jathay. Ela faz cinema. A câmera recebe os convidados que chegam, em frente ao prédio da Comédie Française, que encomendou o espetáculo. Os personagens de Renoir. André, que chegou da sua volta ao mundo. Christine, a ex, agora casada com Robert. Essa aí, descendo do carro, não é Dominique Blanc? E o André, ops, é o Laurent Laffitte, de Elle. A caça à raposa, no campo de Renoir, vira uma brincadeira no teatro. E tudo se passa no hall, nos corredores. A câmera entra no teatro. Nós,o público, estamos vendo tudo isso no telão montado no palco. De repente, cai o telão e estamos frente ao palco nu. O palco da Comédie Française. O território de Molière. O filme vira peça, com pontuais intervenções de imagens em superfícies planas. Christiane Jathahy provocou a reação feroz de uma crítica reputada aqui na França. A mulher caiu matando na Regra do Jogo. Christiane teria sido desrespeitosa com a instituição que a abrigou. A tal crítica, com certeza, sentiu-se agredida em seu conforto. Christiane Jathay viu, e entendeu, o Renoir. Pesquisou direitinho a história da Comédie. O filme propõe uma leitura farsesca da luta de classes. Vira uma tragédia. Robert Altman já diluiu Renoir por meio de Agatha Christie em Assassinato em Gosford Park, mantendo a ambiance campestre. Christiane Jathay radicaliza a farsa, transformada em jogo de máscaras – em teatro. Enquanto se mantém dentro do espaço sacrossanto do teatro, o jogo de adultérios está a salvo. Existe a criada de Christine, seu marido – o guarda caças alemão chez Renoir, agora transformado em segurança negro. O equilíbrio rompe-se quando a ação quer sair para a rua. A realidade é mais forte. A violência encenada torna-se real – morte. Fiquei impressionadíssimo com as liberdades tomadas por Christiane Jatahy. São autorizadas pelo próprio Renoior. que se inspirou em Alfred de Musset (Les Caprices de Maroianne), em Marivaux e nas Bodas de Fígaro. Já havia em A Regra do Jogo, o filme, essa desmontagem do texto clássico pelo humor. Imagino que a crítica francesa, a pobre, deve ter-se sentido ofendida porque uma diretora brasileira veio dar aulas de teatro, e cultura clássica, na Comédie Française, uma instituição Nacional. Depois, eu queria porque queria ver a Catherine Frot em Flor de Cactos, pelo qual ela ganhou o Molière de melhor atriz. Fomos ao Antoine. O teatro estava lotado. Pagamos um dinheirão por uma daquelas cadeiras laterais de plateia. Teatrão. Duas horas sem pique. Devagar, quase parando. Imagino que a peça poderia ser reencenada no Brasil e daria um dinheirão. Com mais malícia, seria bem aceitável. Engraçada, até. Mas, face a essa mediocridade, o que Christiane Jatahay propõe, em A Regra do Jogo, é uma revolução. A luta de classes como expressão das guerras coloniais. Teria de ser a leitura de alguém vindo de um país colonizado (culturalmente) pelos franceses. E a Jatahy não pára. Estava no outro dias em Portugal, indo para a Alemanha, para trabalhar com um grupo de lá. Christiane virou a mais internacional dos/das diretores/diretoras brasileiros(as) de teatro. Seus cortes secos atravessam mídias e pontos de vista. Teatro e cinema. Canto, dança, intervenções da câmera. Realidade e ficção. Ecos de Jean-Luc Godard. A tragédia é travestida de acidente. Mais que’est-ce qu’un accident?, mas o que é um acidente?. Acossado. estou, como se diz aqui, bouleversé.