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Chico, e o Essa Gente

Luiz Carlos Merten

14 de janeiro de 2020 | 09h55

Se não estivesse tão empenhado em servir a um governo inimigo da cultura e lambe-botas de outro mais maluco ainda – Mr. Trump, claro -, Roberto Alvim poderia estar tentando resolver o problema da adaptação do novo livro de Chico Buarque. Mas, fazer o quê, Alvim?, como grande diretor de tragédias gregas, deve saber melhor que eu que os deuses enlouquecem primeiro aqueles a quem querem destruir. Todo livro do Chico coloca sempre problemas de língua, linguagem e estrutura, para pegar carona na entrevista de Jean-Luc Godard no Cahiers de outubro. Não é um autor fácil, o Chico, mas (quase) todos os seus livros foram adaptados – Estorvo virou um grande filme de Ruy Guerra, com aquela fotografia de Marcelo Durst. Monique Gardenberg adaptou Benjamin – e revelou Cléo Pires. Walter Carvalho filmou Budapeste e Roberto Alvim colocou Leite Derramado no palco, oferecendo um grande papel à sua Lady Macbeth, a extraordinária Juliana Galdino, cuja capacidade de metamorfose é inesgotável. E a dicção daquela mulher! Não há o que ela não possa fazer com a voz. Deveriam estar no palco, criando, e não usando a burocracia para destruir. Não me esqueci d’O Irmão Alemão, mas não creio que tenha tido sequer os direitos comprados – não me lembro de alguém comentar. Enfim, Essa Gente. O novo livro do Chico é um romance epistolar, construído por meio de anotações, cartas, mensagens. Mostra um escritor em crise, um tal Manuel Duarte, com suas várias mulheres e um filho problemático. É linear, avançando de 30 de novembro de 2018 a 29 de setembro de 2019, mas com pelo menos um recuo no tempo (2017) para ajudar a explicitar a solidão de Duarte, sua falta de recursos e a teia de mágoa, solidão e mal-entendidos eróticos em que está enredado. Num certo sentido, achei o livro mais fácil de ler do Chico, embalado com humor e uma espécie de melancolia – um sentimento de estar à deriva no mundo – que deve ter a ver com a condição de um homem e artista que já foi talvez o mais amado do Brasil e que o antipetismo que colocou Jair Bolsonaro no poder escolheu como um de seus alvos preferenciais. Para manter a tradição, imagino que Essa Gente terminará sendo adaptado. Minha fantasia maior é por quem poderá fazer a Rebekka, a gringa amante do salva-vidas (Agenor) e que estimula os devaneios masturbatórios do Duarte.

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