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Chama o Leo

Luiz Carlos Merten

18 de março de 2014 | 17h46

Fui ontem ao Rio participar do evento Rio 2. Assisti ao filme, que terá sessão de imprensa na sexta, em São Paulo, fiz as entrevistas – com Carlos Saldanha, Rodrigo Santoro e os músicos Carlinhos Brown e Sérgio Mendes. Havia adorado Rio – o 2 não me agradou tanto. Teve uma hora que me senti como cusco em tiroteio – ou cachorro que cai da mudança. Além de muito infantil, o filme me pareceu não ter um foco preciso. A trama abre-se em muitas direções, vende um Rio fantasioso e eu comecei a me entediar. Mas o começo e o fim, o réveillon carioca e o carnaval amazônico, têm o brilho e a imaginação visual que se espera – eu espero – do Saldanha. Volto ao tema Rio, a cidade. O Rio virou Beirute no auge da guerra civil. É um gigantesco canteiro de obras, a Copa e a Olimpíada vêm aí. Pode-se argumentar que, quando as obras acabarem, teremos o Rio sonhado pelo Saldanha. Duvido. O trânsito do Rio está mais caótico que o de São Paulo – não é pouca coisa – e as mudanças no Centro estão desagradando todo mundo. Peguei táxi, ônibus, não vi ninguém satisfeito em transporte nenhum. De repente, em São Paulo e Rio, baixou um conceito que transforma o táxi, que pode ser um transporte público de elite, mas é público, em inimigo que precisa ser extirpado das ruas. Eu que pego táxi todo dia, toda hora, não consigo encarar o assunto de outra forma. E aqui em São Paulo, não há um dia da minha vida em que eu não pense em Leonardo Medeiros. Em Não por Acaso, do Philippe Barcinski, como o engenheiro de tráfego, ele passa o dia consertando os problemas do trânsito da cidade. Não por Acaso não é só uma ficção – é uma fantasia científica. Na realidade, qualquer pessoas sabe que o Leo salvador – chama ele – não tem pé na realidade. A CET muda o sentido das ruas a três por dois, e com certeza não deve ter compromisso com a melhoria do trânsito. Moro num trecho de uma rua de Pinheiros que é a única, por ali, que tem mão única. Para entrar e sair, é preciso uma volta de cão. Quando desço a Rebouças e passo a Henrique Schaumann, para fazer conversão à direita tenho de ir lá embaixo, descer quatro (quatro!) ruas e uma é uma quadra que deve ter quase um quilômetro. Não sei como os engenheiros conseguem em outras capitais, mas em Berlim, Paris, Londres, Nova York e Los Angeles – cinco cidades para as quais viajo bastante, a trabalho ou não -, nunca vi nada parecido. Em Nova York, uma rua vai, outra vem, e é assim que funciona. E eles interditam, e avisam quando tem um problema ali na frente. Aqui, é o f…-se. Quando chega domingo, o problema agora são as bicicletas, que têm a preferência. Como pedestre, tenho de parar para ver bicicleta passar e, no outro dia, uma caravana de ciclistas ocupou a pista inteira – porque não iam caber na sua faixa, e o trânsito todo parou por isso. Vida saudável um caralho. Odeio essas bicicletas porque são pura propaganda de4 banco que eles, ou eu me engano muito ou deduzem do imposto de renda. Nunca vi banqueiro dar nada de graça – é uma categoria que vive dos lucros, e dos juros. Aliás, vou contar uma história que tenho entalada, há anos. Fui uma vez convencido por uma vaca da de uma gerente do Unibanco a fazer um seguro de vida para a minha filha. Até aí tudo bem, mas de repente decidi que não queria mais. Ia fazer uma poupança. Ela me convenceu que seria prejudicada, se eu desistisse da conta e eu, otário, continuei. Paguei mais dez anos (15?) e aí tive meu problema do coração, passei por uma cirurgia delicada, fiquei um tempão no hospital. Nem vi os avisos de que o seguro tinha saído do débito automático. Não paguei um par de meses e, quando recuperado, tentei retomar a vida e as contas, já tinha sido desligado. Pagava uma fortuna por mês. Perdi tudo, até o último centavo. É o ó. Michael Moore é panfletário, mas tem razão. Seguro de saúde ou de vida prometem mundos e fundos, mas depois o negócio é negar o serviço, por que, senão, onde vai parar o lucro? O bombeiro que contraiu doença no pulmão ao aspirar fumaça no 11 de Setembro não foi atendido pelo seguro nos EUA e só não morreu porque Moore, com sua câmera (claro), o colocou num barco e levou a Cuba, onde o falido sistema de saúde dos Castro lhe garantiu a sobrevida. Misturei alhos com bugalhos. Um dia terei esquecido isso – dinheiro não traz felicidade mesmo -, as obras terão acabado. Nossas cidades serão melhores? Com a deseducação no trânsito, nem chamando o Leo.

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