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César, Spirit e as tais ‘Framboesas’

Luiz Carlos Merten

03 de março de 2014 | 11h55

E o César, hein? O Oscar francês foi outorgado no sábado à noite, mas com a correria do carnaval, da morte de Alain Resnais e da cobertura do prêmio da Academia de Hollywood, nem havia tido tempo para pesquisar o resultado. Os grandes filmes do ano – Um Estranho no Lago e Azul É a Cor Mais Quente – ganharam os prêmios de ator e atriz revelação. Pierre Deladonchamps e Adèle Exarchopoulos. Só. O belga Felix van Groeningen, de um filme bem simpático que também concorria no Oscar – Alabama Monroe -, bateu Alfonso Cuarón, Paolo Sorrentino, Woody Allen e Quentin Tarantino e ficou com a estatueta de melhor estrangeiro do anop. E uma comédia venceu os poderosos dramas de Alain Guiraudie e Abdellatif Kechiche – Les Garçons et Guillaume, à Table!, de Guillaume Galienne somou ao César de filme os de ator, para o próprio diretor, e roteiro. Arrependo-me de não ter visto o filme em Paris, onde fazia um sucesso imenso, mas preferi prestigiar as reprises e a estreia do RoboCop de José Padilha. Mas não posso deixar de assinar embaixo da vitória de Roman Polanski como melhor diretor, por Venus à la Fourrure. É o melhor filme dele em muitos anos, e a Emmanuelle Seigner finalmente tem espaço – e um papel – para mostrar a maravilhosa atriz que pode ser. Gostei da atitude política do júri presidido por Steven Spielberg por ter premiado Amat Escalante como melhor diretor em Cannes, no ano passado, por Heli, mas achei um escândalo que Polanski não ganhasse nada. Para o meu gosto, Venus dá de 10 em O Escritor Fantasma, do qual nem gosto tanto (acho médio, para dizer a verdade). Nos EUA, o Spirit Award praticamente antecipou o prêmio da Academia – ganharam 12 Anos de Escravidão (filme e diretor, Steve McQueen), Cate Blanchett, Matthew McConaughey, Lupita Nyong’o e Jared Leto. Quanto à Framboesa de Ouro, não tenho muita paciência com o prêmio para os piores do ano, até porque muitas vezes gosto dos vencedores. Jaden Smith foi pior ator, Will Smith pior coadjuvante e pai e filho formaram a pior combinação do ano em Depois da Terra, de M. Night Shyamalan, que, em seus piores momentos, quaisquer que sejam, sempre tem algo a me dizer, ao contrário dos malfadados Coen, os maiores ‘poseurs’ do cinema atual. E o pobre do Martin Scorsese, que teve de comer a pizza da Ellen De Generes na festa da Academia? Luis Buñuel, no epílogo de seu livro autobiográfico – escrito por Jean-Claude Carrière -, Meu Último Suspiro, diz que não se importava de morrer, mas de dez em dez anos gostaria de voltar para ver o estado do mundo. Tinha tanta certeza de que as coisas só iriam piorar que acrescentava que regressaria em paz para a tumba. Digamos que não esteja mais aqui dentro de 12 anos, quando alguns otimistas vaticinam que O Lobo de Wall Street será aclamado como a obra-prima que não é. Não sei se gostaria de voltar. Seria a prova definitiva de já terei ido tarde e as coisas terão piorado (muito!).

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