As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cenas do meu isolamento

Luiz Carlos Merten

23 de maio de 2020 | 18h33

Tenho continuado com meus Clássicos do dia – Os Pecados de Todos Nós, Vampiros de Almas, Metropolis, Mamma Romma, O Intrépido General Custer. O gênio de Raoul Walsh que antecipou Joseph Campbell, O Heroi de Mil Faces. Escrever sobre esse Walsh me fez viajar na lembrança. Era jovem, mas quando George Armstrong se despede da sua Libby, e é um adeus definitivo, porue ele sabe que vai morrer no casmpo de batallha, a cena me marcou tanto que ficou gravada no meu inconsciente. Faz parte do meu imaginário. A câmera avança com Errol Flynn em direção a Olivia De Havilland – foi o último dos oito filmes que fizeram juntos. Ele faz um gesto galante e diz, cerimoniosamente, tratando-a como ‘madame’, que foi um privilégio amá-la e viver a seu lado. A câmera está colocada atrás do ombro de Flynn, na altura dos olhos. Ele se vira, sai de cena e Olivia, expressando a intensa emoção da mulher de Custer, tem um desfalecimento, e cai ao solo. Custer pode ter entrado para a história como um louco militarista, matador de índios, mas o de walsh vai na contramão da história. Defende os índios, morre por eles. Na era das fake news, cá estou, no meu isolamento deste sábado, pensando que o cinema, afinal, pode construir verdades e mentiras na cabeça da gente, e essa, mais que nunca, é a realidade na qual estamos atolados. Regina Duarte foi defenestrada esta semana da Secretaria Especial de Cultura e voltou a São Paulo para ‘fazer’ a Cinemateca, uma definição dela, completamente sem noção. Acabo de ler, na CartaCapital, o texto de Eduardo Nunomura, Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Santos, O pum da palhaça. Os absurdos que essa mulher disse durante sua brevíssima passagem pela secretaria. Não dá para não pensar nos outros absurdos que foram ditos durante a famosa reunião ministerial, cujo vídeo foi divulgado pelo ministro do Supremo, Celso de Mello. Damares, onde andava?, ressurgindo com a promessa de prender governadores e prefeitos, a quem responsabiliza pelas maiores violações de direitos humanos da história do Brasil. Abraham Weintraub revelando que seu sonho seria prender os ‘vagabundos’ do Supremo. Prender, prender. Já Ricardo Salles quer aproveitar a ‘distração’ do Covid para ‘passar a boiada’, flexibilizando as leis do meio-ambiente que, pelo cargo, deveria proteger. Pode ser o isolamento – não é fácil ficar sozinho -, mas desde que vi o tal vídeo me baixou uma tristeza. Pensar que essa gente foi eleita com os votos de pessoas a quem admirava, considerava amigos. Dirão que não sabiam? Estarão arrependida(o)s? Ou querem cantar Pra Frente Brasil com a palhaça? No descalabro que está esse País, o risco é a crise da saúde se estender, mais e mais. Vai passar, sim, mas quando? Volto a Damares. Será que ela considera violação de direitos humanos ou apenas efeito colateral a morte do garoto negro, esta semana, no Rio, durante uma operação policial? Não esqueço o desespero da tia do garoto – “Não é porque era negro que meu sobrinho era bandido.” Até quando um Brasil vai negar o outro?