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Celso Frateschi e a potência das palavras, O Grande Inquisidor

Luiz Carlos Merten

23 Setembro 2018 | 23h24

Já que não consegui ingresso para ver Cérebro, Coração, fiquei indeciso entre O Grande Inquisidor e o novo Antunes Filho. Só depois descobri que era o último dia de Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã, do Antônio Bivar, direção de André Garolli. Perdi. Fui ao Ágora. Sylvia Moreira, afetiva como sempre, me recepcionou na entrada, mas não a vi na saída. O Grande Inquisidor recria uma das passagens célebres de Os Irmãos Karamázov, de Dostoievski, quando Ivan fala do retorno de Jesus à Terra durante a Inquisição espanhola e é contestado pelo cardeal que desautoriza o próprio filho de Deus, dizendo que Ele e os seus se gavam de ter suprimido a liberdade para fazer os homens felizes. Frateschi já encenou o monólogo duas vezes antes, em 2010 e 2016. Essa é a terceira e tem tudo a ver com o momento atual e os modernos inquisidores, que estão fazendo de tudo para tentar nos impedir de ser felizes. A montagem é simples e direta, sob medida para destacar a potência das palavras e o vigor do intérprete, mas confesso que viajei um pouco. O inquisidor inicia e encerra o espetáculo com um manto que tem a ver com sua investidura no cargo. Eu fiquei vendo ecos do manto do Bispo do Rosário, até porque ambos atuam no limite da (in)sanidade, construindo discursos que elaboram imagens e fragmentam a comunicação. Gostei.