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Cecilia, Bibi, os afetos próximos e distantes

Luiz Carlos Merten

20 de abril de 2019 | 12h08

PORTO ALEGRE – Devo viver num mundo à parte, porque só soube dessas mortes depois. A tua colega jornalista, pai, me comentou a Lúcia. Quem? Cecília Thompson! Nunca trabalhei diretamente com ela, mas fomos colegas no Estadão e cheguei a frequentar a casa de Cecília – um ou dois jantares – com Dib Carneiro. Cecília foi casada com Gianfrancesco Guarnieri, era mãe de Flávio e Paulo, avó de Francisco, que dirigiu o documentário sobre o avô. E a jovem Cecília era um assombro de beleza, com aquele cabelo à Jean Seberg. Cecília tinha nove anos mais que eu – morreu com 82, na quinta, 18. Muito conversei com ela sobre o que era ser jovem no mundo em ebulição dos anos 1950/60. Eu vivia na província. O mundo, naquele tempo, não era instantâneo. Claro que havia o rádio, o jornal, a TV engatinhava. Mas eu já olhava com inveja para o mundo fora dos limites de Porto Alegre. E a Cecília me encantava com seus relatos do Centro do mundo. Do Teatro de Arena, de Simone De Beauvoir, Jean-Luc Godard, Acossado! A sensação de estar integrado(a) a um processo de transformação, quando jovens sonhadores idealizavam um mundo melhor. Não a via há tempos, fora das redes sociais não sabia dela. Vai, querida amiga! E a atriz, me disse a Dóris! Ela mesma procurou no celular e me mostrou o necrológio no Estado, assinado por Antônio Gonçalves Filho. Bibi Andersson! A jovem Bibi fornecia uma espécie de contraponto a Harriet Andersson, só um pouco mais velha, no universo de Ingmar Bergman, na primeira fase da carreira dele. Harriet era aquele furacão de sexo, Mônica e o Desejo, Noites de Circo. Bibi integrava a família de saltimbancos salva pelo cavaleiro Max Von Sydow em sua barganha com a morte em O Sétimo Selo. Teve um belíssimo papel em Morangos Silvestres – era Sara, uma do grupo de estudantes a quem o Professor Isak Borg/Victor Sjostrom dava carona, mas Sara também era o amor de juventude, a quem ele chamava, pateticamente, jogado naquele jardim da memória. Foi Alma, a enfermeira que atendia a atriz Elizabeth Vogler/Liv Ullman, em crise de (auto)isolamento em Persona/Quando Duas Mulheres Pecam e as duas estabeleciam aquele intrigante jogo de espelhos e transferências. E teve aquela cena admirável em A Hora do Amor. Ansiosa para se encontrar com o amado, vai para a frente do espelho e troca várias mudas de roupa, em busca da que lhe caia melhor, mas termina por desistir e volta ao início. Com Bergman fez ainda No Limiar da Vida, O Rosto, Para não Falar de Todas Essas Mulheres, A Paixão de Ana. E trabalhou com outros diretores importantes. Vilgot Sjoman, John Huston, Robert Altman. Bibi também estava nos 80 – e três. Morreu no domingo, 14.

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