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Caymmi, o pai. E Cine Holliúdy 2, ou como o sertão deu régua e compasso para Spielberg

Luiz Carlos Merten

03 de abril de 2019 | 09h51

Assisti ontem pela manhã, nas cabines do É Tudo Verdade, ao documentário de Daniela Broitman sobre Dorival Caymmi. Um Homem de Afetos. Que personagem! Dorival e o mar, o vento, suas canções de mulheres. Dorival e Estela – achei linda a promessa que ele fez para a mulher, que quando tudo terminasse ele iria primeiro e a estaria esperando. Caymmi morreu dias antes dela. Lembrei-me de Federico Fellini e Giulietta Masina. Nana Caymmi tem estado sob ataque nas redes sociais por causa de sua entrevista na Folha, que já foi tema de um post aqui no blog. Para usar a linguagem dela, f…-se o reacionarismo de Nana. Cantando o pai à capella, como faz em Um Homem de Afetos, é genial. Daniela dá conta de seu personagem, de seus personagens, mas eu, como homem, creio que haveria foco para um viés que talvez não interesse tanto ao olhar feminino. A cumplicidade entre pai e filho, entre Dorival e Danilo, que nunca tinha reparado mas foi (é?) um belo homem e deve ter feito a fila andar. Nana fala tanto de seus dez ou onze maridos… Vou esperar pela grande entrevista, as confissões de Danilo. Caetano fala das mãos, dos olhos revirados de Dorival e identifica ali a feminilidade do macho baiano, seu charme especial, a sedução. E a pegadinha é que os maridos ficavam conjeturando se ele seria gay, e enquanto isso Dorival, mansamente, comia suas mulheres. Tudo isso é meio incorreto, eu sei, mas a riqueza do filme está na complexidade e riqueza daquele homem de afetos. À tarde, fui ver na cabine da Paris Cine Holliúdy 2 – A Chibata Sideral, que está batendo a Capitã Marvel no Ceará. Baterá também Shazan, que estreia no mesmo dia em todo o Brasil, nesta quinta? Quero dizer que gostei muito mais que do primeiro. Amei! E ri, chorei com esse sonho de cinema que Halder Gomes coloca na tela com a cumplicidade de seu elenco. Francisgleydisson, Graciosa, Francin. Edmilson Filho, Miriam Freeland, Ariclenes Barroso. E Chico Diaz como o Vei Góis, e Samantha Schmutz, a prefeita Justina, com aquele bordão. “Eu sou escrota, muito escrota!’ Halder Gomes ressuscita, para o século 21, a estética da paródia da Atlântida e mostra como um diretor ‘primitivo’, do sertão, deu o mapa e o design para Steven Spielberg criar o seu ET. Há uma euforia, um desejo e um prazer de brincar com os códigos do cinemão que me tornaram criança, de novo. E Halder faz piada de gay sem ser homofóbico, de mulher debochando do machismo. Gostaria que um filme como Cine Holliúdy 2 fizesse um sucessão imenso, que conquistasse os corações e mentes. Porque tem ali inteligência e um pensamento sobre cinema e colonialismo cultural. Voltei à redação para fazer as matérias de hoje no Caderno 2 e encerrei a noite vendo A Rainha Nzinga Chegou no encerramento da Mostra Aurora, no Cinesesc. Não pude ir a Tiradentes em janeiro e Raquel Hallak me fez um relato bonito de como a mostra, após a eleição, foi marcada pelo afeto que uniu as pessoas, conscientes das dificuldades que viriam e aí estão, e atingindo não apenas o cinema, com esse bando de celerados no poder. A Aurora de 2019 teve um grande filme (A Rosa Azul de Novalis), outro bom (Um Filme de Verão), teve belíssimos fragmentos de cinema (Seus Ossos e Seus Olhos), mas, como ‘mostra’, não me convenceu muito. A janela para o Brasil e o mundo revelou, mais que a crise política que assola o País, uma certa crise estética que assola um cinema autoral cujo radicalismo está ficando estéril e repetitivo. A Aurora virou gênero, gente.