As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cavalos de Fogo

Luiz Carlos Merten

23 de fevereiro de 2014 | 12h06

Embora tenha sido um cineasta da Georgia, Sergei Paradjanov filmou Cavalos de Fogo em dialeto ucraniano, e isso na época – os anos 1960 – foi considerado uma provocação, porque os habitantes da Ucrânia, naquela época, já protestavam contra o Kremlin. Inspirado em lendas e narrativas orais ucranianas, o filme conta a história de um casal de jovens – de famílias rivais -, espécie de Romeu e Julieta, mas a história aqui é um conceito meio vago, porque o que interessa é o movimento e a cor, os figurinos, a cenografia, o visual. Não é que Glauber Rocha tenha copiado, mas sempre achei que o duelo de Coirana, no começo de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, é puro Paradjanov, dentro daquele conceito gramciano do nacional e do popular. Jean-Luc Godard era louco pelo filme e dizia que Paradjanov inventou a ópera cinematográfica. Confesso que nunca tinha visto Cavalos de Fogo – só as cenas naquele documentário sobre o diretor exibido pela Mostra -, mas o ineditismo, para mim, terminou na quinta passada. Vi à tarde, em Paris,  e, da Filmoteca do Quartier Latin, já fui diretamente para o aeroporto, só passando pelo hotel para pegar a mala. Toda a imprensa diária francesa ressaltou a importância do retorno, em cópia nova, restaurada, do clássico de Paradjanov, e isso num momento em que a Ucrânia fervia, como segue fervendo, após a destituição do presidente Viktor Yanukovich. Cavalos de Fogo foi o primeiro de uma série de filmes que colocaram o autor na lista dos inimigos do regime comunista. Paradjanov era considerado  non grato e o regime o perseguia por tudo, incluindo acusações de homossexualismo (de novo?) e tráfico de ícones. Ele foi enviado para um campo de trabalhos forçados, mas deu um jeito de seguir com sua arte, fazendo encenações (de teatro) com os recursos à mão e a cumplicidade dos demais presos. Paradjanov tem um universo plástico – um barroco russo? –  que possui um parentesco muito forte com o que faz meu amigo Gabriel Villela. Vocês já viram Um Réquiem para Antônio? Ainda não? Não sabem o que perdem. Sem se inspirar no russo, Gabriel tem a mesma inesgotável força de imaginação. Como é que ele pode se reinventar, a cada nova montagem? E será que não existe uma cópia de Cavalos de Fogo – na Mostra, na Cinemateca? – para ressuscitar esse grande filme?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.