As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cavaleiros do Buzkashi

Luiz Carlos Merten

12 de abril de 2013 | 10h19

Paulo Francis, que não era exatamente um ‘comunista’, sempre escarneceu da imprensa – à qual pertencia -, por suas simplificações. Lembro-me de como, certamente por provocação, ele criticava a ausência de liberdades na antiga URSS mas dizia que, no plano internacional, era importante que ela existisse como limite ao poderio norte-americano. Quando os russos invadiram o Afeganistão, após a guerra do Iraque de Bush pai, toda a imprensa criou uma fantasia sobre os ‘gentis’ habitantes do país. Paulo Francis lembrava que eram bérberes e bárbaros, e eu estou me lembrando disso porque a Cultclassic está lançando Os Cavaleiros do Buzkashi, de John Frankenheimer. Era um jovem crítico em Porto, na antiga Folha da Manhã, quando o filme estreou. Naquele tempo, os filmes demoravam mais para chegar e a produção de 1970 deve ter estreado em 1971 ou 72. Sempre gostei muito de Frankenheimer, que foi dos primeiros diretores que a TV cedeu a Hollywood. Seu primeiro filme, No Labirinto do Vício, é de 1956, e ele voltou à televisão, só assinando o segundo longa em 1961, Juventude Selvagem. Vieram depois O Homem de Alcatraz, O Anjo Violento e Sob o Domínio do Mal, The Manchuriarian Candidate, a primeira versão – com Frank Sinatra e Laurence Harvey -, que estabeleceram sua reputação. Ele permaneceu no thriller político com Sete Dias de Maio e, em 1966, realizou uma ficção-científica estranhíssima que, para muita gente, é sua obra prima – O Segundo Rosto, com Rock Hudson -, mas o ‘meu’ Frankenheimer é aquele que, no biênio 1969/70, fez, em sequência, uma série de grandes filmes que me deixaram louco. O Homem de Kiev, baseado em Bernard Malamud, com Alan Bates e Dirk Bogarde, Os Pára-Quedistas Estão Chegando, O Pecado de Um Xerife e Os Cavaleiros do Buzkashi, The Horsemen, com Omar Sharif e Jack Palance. Quatro grtandes filmes em dois anos. Nada mau. Há neles, em Os Pára-Quedista e O Pecado, uma descrição da ‘América’ interiorana, com seus personagens amargurados, as pequenas vidas vazias, que muito me fascinava, e eu fazia pontes entre Frankenheimer e Elia Kazan, com seus temas da segunda chance e da natureza humana que se recusa a ser reprimida. E aí veio Buzkashi, sobre um jogo nas planícies afegãs. Omar Sharif participa desse jogo em que a cabeça decepada de um carneiro é disputada como se fosse a bola numa partida de futebol. Vale tudo – porrada, pedrada, até que o último cavaleiro permaneça em seu cavalo. O buzkashi era a expressão do nada pacífico povo afegão. Eu amava o filme, sua violência, a intensidade do conflito entre pai e filho. Omar Sharif entra no jogo para agradar ao pai, Jack Palance, que foi o maior dos cavaleiros do buzkashi. Até onde me lembro, há ressentimento entre os dois e, quando percebe que o filme não está à altura da tarefa, Jack Palance tenta voltar à sela, mas ele próprio está alquebrado. Jack Palance no cavalo! Frankenheimer certamente foi buscar no ator a imagem mítica de Wilson em Os Brutos também Amam, Shane, de George Stevens. É famosa a história de que Palance não conseguia montar no cavalo e Stevensa o filmou desmontando, para depois inverter o tempo da cena, o que criou um efeito grandioso, teastralizado (e ameaçador). Buzkashi manterá sua força, mais de 40 anos depois? Daquela geração de diretores da TV (Arthur Penn, Sidney Lumet etc), Frankenheimer foi o que mais degradou seu talento. Em meados dos anos 1990, ele chegou ao que me pareceu seu fim da linha, com um filme de horror realmente horrível, A Ilha do Dr. Moreau. Até os filmes de TV, à qual regressou, como sua versão da história de Chico Mendes – o premiado (com o Emmy) Amazônia em Chamas -, não me convenceram. Frankenheimer havia sido tão grande. Tenho até medo de rever Os Cavaleiros do Buzkashi, mas vou fazê-lo. Se reencontrar parte do que o filme representa no meu imaginário, já valerá a pena.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: