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Cate, Caco e o que Partida me deu (mas o texto tem spoiler)

Luiz Carlos Merten

06 de novembro de 2019 | 14h06

Assisti ontem, pela manhã à cabine de imprensa do novo Richard Linklater. Gostei demais de Cadê Você, Bernardette? Nesse ano que está sendo tão rico em possibilidades para o Oscar de melhor ator – Joaquin Phoenix, Brad Pitt, Antonio Banderas, Jonathan Pryce e Anthony Hopkins (minha lista de indicados já está completa) -, não vejo muito a contrapartida das interpretações ‘delas’. Não via – chegou Cate Blanchett. É maravilhosa. Sem entrar em detalhes, quero dizer que passei mal a noite anterior. Não conseguia dormir, estava angustiado, questões pessoais. E aí o Linklater e a Cate me lavaram a alma. Não apenas eles. Billy Crudup, um ator de quem gosto muito, mas que nem sempre tem papéis à altura. O casal que se perde no meio do caminho, o reencontro interior num cenário que parece improvável – as extensões geladas da Antártida. E a Cate faz uma arquiteta que, num determinado momento – da vida e do casamento -, entrou em crise com a profissão. Com sua arte? O filme me tocou muito. Reconciliado comigo, fiz o meu material do dia para a edição de hoje do Caderno 2 e fui ao Centro buscar os óculos novos. Perdi os anteriores no táxi, uma coisa que me ocorre com frequência. Voltei a enxergar, e não é nenhuma metáfora. Estava com um óculos antigo, que parecia embaçado. Pior cego é sempre o que não quer ver. Fez-se a luz! E eu fui ver no fim da tarde o Partida, na repescagem da Mostra. Havia perdido o documentário de Caco Ciocler. Coincidentemente, no sábado fui ver a remontagem, pela própria Monique Gardenberg, de Os Sete Afluentes do Rio Ota, com o Caco. Tenho de admitir que ele, e Monique, me fizeram chorar com a cena belíssima que encerra o primeiro ato. E agora tenho de dizer de novo que esse cara, e a Georgette Fadel, e o José Mujica, ex-presidente do Uruguai, me fizeram chorar de novo. No que parecia o beco sem saída da eleição de Jair Bolsonaro no ano passado, naquele momento abissal – como será o futuro? É o que estamos vendo -, Caco e seus amigos, face a tanto sentimento negativo, não, não, não, resolveram dar um sim. Alugaram um ônibus e rumaram para o Uruguai, para tentar encontrar Mujica na passagem de ano. A ideia era documentar a viagem e aí foram feitos certos arranjos, como tentar formar um grupo heterogêneo, de vozes discordantes, para garantir que houvesse uma tensão, ou discussão, a bordo. Georgette, que intempestivamente lança sua candidatura à presidência em 2022, passa a viagem brigando com ‘Léo’. Agridem-se verbalmente, ela eleva a voz, chama-o de ignorante. Ele rebate, também truculento. Nada que o afeto, um abraço, não resolva. O tema do filme é esse. Cada um tem o mito que merece, ou escolhe. O eleito, no Brasil, pregando a cultura do ódio, da diferença. Mujica não sabe que o grupo está indo. Conseguirão nossos amigos encontrá-lo? Como eu não sabia de nada sobre o filme, sugiro que parem de ler, porque vai ter spoiler. Georgette discursa o tempo todo contra um sistema econômico desumano, que rouba a vida das pessoas. E aí Mujica, todo amor, faz uma análise que não estava programada, mas tem tudo a ver com o que ela vinha dizendo. No futuro, a desigualdade estará tão grande que os ricos poderão viver 200 anos, comprando a sobrevida com o desenvolvimento científico que só eles poderão pagar. Coisa de ficção científica – justamente. Lembrei-me de um filme esquecido – Freejack, de Geoff Murphy, com Emilio Estevez, Mick Jagger e Anthony Hopkins, que é um pouco sobre isso. Mujica virou esse ícone da esquerda. Um sábio. Terno. É pegar ou largar, e obviamente que encampar seu discurso pode provocar reações. Entre o amor e o ódio, a civilização e a barbárie, só se fosse louco para vacilar. Tem gente que se autoproclama do bem, mas não é. Partida teve um significado muito especial para mim. Fiz parte daquele caminho muitas vezes, de Porto Alegre. Era comum, no começo dos anos 1970, pegarmos um ônibus na rodoviária de Porto e seguir para Montevidéo, onde, apesar da instabilidade política e até da ditadura, o sentimento cinefílico dos uruguaios permitia que fossem exibidos nas salas filmes que eram proibidos pelo regime militar no Brasil. Aquele ônibus, aquela paisagem, mexeram muito comigo. Dóris eu fomos acampar certa vez no Uruguai – foi minha única experiência do gênero. Acampamos numa fortaleza, um lugar maravilhoso, em meio a uma floresta perfumada de pinos que, soubemos depois, abrigava prisões clandestinas de militares uruguaios, onde o próprio Mujica pode ter estado preso, conforme o relato de Uma Noite de 12 Anos. Não éramos inocentes, Dóris nem eu. Fazia matérias denunciando a censura e a repressão nos jornais de Porto Alegre. Mas saber que estivemos tão próximos do horror, acobertados por uma aparência de normalidade – toda aquela gente simpática, prestativa -, foi devastador. Me produziu um sentimento visceral de culpa. Viajei em todas essas lembranças assistindo ao filme de Caco Ciocler. Talvez precise deixar passar um tempo e rever o filme para encarar mais racionalmente o que ontem virou experiência emocional. Dóris me ligou hoje pela manhã, de Porto, para falarmos sobre a Lúcia, nossa filha, e a cachorra dela, a Angel, que não anda bem. Terminei falando muito da Partida. Com o Josafá, Banquete Coutinho, a Maria, Outubro, foi das minhas experiências marcantes na 43.ª Mostra.