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Casais, na sinfonia do (nosso) caos

Luiz Carlos Merten

27 Setembro 2018 | 17h43

Embora tenha credencial do Arteplex, sigo minhas regras e uma delas diz que devo pagar para ver os filmes brasileiros no circuito. Teria me sentido muito mal, se não fosse assim, porque era o único espectador na sala, na sessão as 14h10, para ver O Homem Perfeito. Nossos blockbusters de comédia não parecem estar atraindo muito o público. É pena. Respeito Marcus Baldini como o bom diretor que é – Bruna Surfistinha, Uma Quase Dupla – e quero dizer que ele não me decepcionou. De novo faz observações interessantes sobre o casal heterossexual, e que bela, no sentido amplo, atriz é Luana Piovani. Adorei a dupla que Sérgio Guizé e ela formam. E é a banda dele que toca, bacana! Quero dizer que, em outro contexto, também era o único espectador – a cabine foi para mim – numa sessão realizada ontem pela manhã, no Belas Artes, de A Moça do Calendário. Queria muito rever o filme de Helena Ignez, que me havia deixado frio em Tiradentes, quando o vi, pela primeira vez, em janeiro – ao contrário de Antes do Fim, de Cristiano Burlan, com Helena e Jean-Claude Bernardet, e esse me havia deixado em transe. Dessa vez gostei muito, principalmente da parte final, depois que André Guerreiro Lopes leva o pé da mulher. Quem nunca…?, ele pergunta e aí entra Djin, na direção do carro, mais linda que nunca, arrastando-o para uma nova vida de aventuras. Cresci num acampamento, ela anuncia. Puta filme libertário, transgressivo. Helena investe contra a sociedade do desempenho e, pegando carona em Byung Chul Han, a quem dedica seu filme, mostra que a doença particular desse século 212 é de ordem psíquica. As dores de cabeça de Inácio, o personagem de André. Dessa vez, embarquei desde a primeira cena, quando ele, trepado sobre uma rampa que dá visibilidade para o Minhocão, rege a verdadeira cacofonia do caos urbano, dessa cidade formatada para os carros. Amei. Vou ver pela terceira vez, e dessa vez pagando, para engrossar a estatística.