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Carta de Ophuls integra meu panteão

Luiz Carlos Merten

19 de fevereiro de 2014 | 19h50

PARIS – Creio que já escrevi isso aqui no blog – gosto de gente, de festa, mas curto demais minha solidão. E, em nenhum outro lugar do mundo, gosto mais de andar sozinho, de estar sozinho que em Paris. Existe uma velha canção de Ivon Cury – ‘Mesmo estando só/eu me sinto feliz, a-hã/cantando a canção que embala Paris…’ É meu hino aqui na capital francesa. Tive um dia bem movimentado. Comecei com as duas grandes exposições de fotógrafos – Brassaï no Hotel de Ville, Henri Cartier-Bresson no Beaubourg. Lá vou eu dar razão a Celso Sabadin, que me acha do contra. Cartier-Bresson, por sua excelência artística e militância, foi o fotógrafo do século 20, mas será que alguém vai se surpreender (sinceramente?), se eu disser que me encantei com Brassaï? Seu amigo Henry Miller, o escritor, dizia que ele tinha uma câmera como olho e Brassaï foi amigo de Picasso, tendo publicado um livro com seus diálogos com o grande pintor. Picasso lhe abriu seu estúdio, seus estúdios – no plural. Brassaï fez fotos extraordinárias – Jean Marais posando para Pablo e a imagem na tela é de mulher, uma Maja cubista; Picasso escreveu uma peça, o que eu não sabia, sorry, e na foto de bastidores estão os amigos Sartre e Simone. Breassaï, depois de descrever os costumes dos homens, fez um filme sobre animais – Tant qu’Il y Aura de Bêtes, que foi premiado em Cannes. O curta integra a exposição – gostei demais, e lembrei-me do Carnaval dos Animais, não o de Saint Saens, mas o de Lina Chamie em Os Amigos, que não me interessa muito (o filme), mas aquela cena é bela. Cartier-Bresson fotografou o século, foi testemunha da história. Brassaï fotografou a noite de Paris. Os paralelepípedos molhados (nos quais se reflete a luz), a bruma, as putas, os gigolôs. Há um tema recorrente, os casais, que se entendiam, se beijam. E existem os voyous, os mauvais garçons e as crianças que olham, pelo vão das cercas, para o que não vemos. É uma coisa que me angustia muito quando vejo essas fotos – as crianças de Robert Doisneau, também. O que houve com nelas? São fotos dos anos 1930, 40, 50. Alguma ainda estará viva? Fiquei até o início da tarde nas exposições. Pela de Brassaï, tive de esperar uma hora na fila, mas valeu a pena. Almocei e vim para o hotel, porque tinha matérias para o Caderno 2 de amanhã. Saí de novo e emendei dois filmes, mas antes passei pela Rue du Prince para descobrir que a Librairie Reflets Médicis fechou, mas ressurgiu como Librairie du Panthéon, próxima à Sorbonne. Fui lá e nem pude conversar com meu amigo livreiro, porque havia uma atividade. A livraria estava cheia para um debate sobre cinema, no qual não prestei muita atenção porque descobri um velho número de Présence du Cinema, datado da primavera (printemps) de 1963. Eu recém completara 18 anos. Passaram-se 50 anos, meio século, e a revista celebrava um diretor que sempre me interessou, e muito. Riccardo Freda. Paguei caro, nem digo quanto, mas não podia perder a entrevista do meu amado Riccardo, em que ele fala de tudo. Neo-realismo (um movimento equivocado, segundo ele), a importância do décor, dos atores, suas referências pictóricas e literárias, o Brasil  (porque Freda filmou aqui). No Beaubourg, havia comprado dois livros, uma coletânea de escritos de Jean-Luc Godard (em seus anos em Cahiers du Cinema), da editora Flammarion, e outra de Pier-Paolo Pasolini, justamente na Petite Bibliothèque de Cahiers. Vou voltar a ambos, mas não resisto a postar  que Pasô desanca Rocco e Seus Irmãos – o filme de minha vida! – e nisso está absolutamente de acordo com Riccardo Freda, que também define o clássico (para mim) de Visconti como um dos piores filmes daqueles anos. Muito interessante, se bem que isso não altere em nada meu sentimento pela saga da família Parondi em Milão. Terminei vendo dois filmes, ambos no Champô, Rue des Écoles, próximo ao hotel em que estou. Emendei A Propriedade Não É Um Roubo, de Elio Petri, com Ugo Tgnazzi, com A Carta de Uma Desconhecida, de Max Ophuls, que reestreou hoje em cópia restaurada digitalmente aqui na França. Achei o Petri excessivo, caricatural. Demasiado formalista, político demais – mas quando que ele não foi assim? Vou terminar dando razão aos que o consideram supervalorizado, e aí vou me sentir culpado, com certeza. Em compensação, surtei com A Carta, que é o ‘meu’ Ophuls. Lembro-me que, na época de Moulin Rouge, fiz alguma comparação entre a artificialidade de Baz Luhrmann e a de Ophuls em sua Lola Montès, e Zanin (meu colega Luiz Zanin Oricchio) aproveitou para me fustigar com um comentário do tipo ‘cada um tem a Lola Montès que merece’. Confesso que nunca tive muito apreço pelo circo de Peter Ustinov e Martine Carol. Antes, podia creditar a insatisfação à remontagem dos produtores, mas, quando o filme passou em Cannes Classics – integral e digitalizado -, não melhorou muito. É um filme sem alma, sem encanto, assim me pareceu. Está tudo lá, muito evidente, talvez evidente demais. A Carta de Uma Desconhecida, pelo contrário, me leva numa viagem. O mundo decadente de Stefan Zweig, o fim de uma era e o início de outra, a delicadeza de Jean Fontaine e a beleza de Louis Jourdan – o exterior como contraponto à interioridade do canalha que ele interpreta e vai ter chance de se redimir -, puta filme. Stanley Kubrick amava Max Ophuls e a valsa de 2001 era uma homenagem a ele, a seus travellings. Ophuls filmou o romanticismo vienense, aristocrático e burguês, mas no fundo o que queria era enterrar/subverter o segundo. De alguma forma, penso que François Truffaut foi seu discípulo – um romântico que desconfiava do romantismo. Cada vez que vejo A Carta, mais gosto do filme.

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