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Carta aos amigos (mas sem brodagem)

Luiz Carlos Merten

18 de janeiro de 2014 | 13h10

Paulo Francis não tinha muito apreço pelo Amadeus de Milos Forman. Dizia, desdenhosamente, que era Mozart para roqueiros. Eu e a torcida do Inter, na contramão, gostávamos justamente por isso. Confesso que fiquei muito curioso quando meu amigo Dib Carneiro Neto foi solicitado por Elias Andreato e Claudio Fontana para escrever uma peça sobre a mítica rivalidade – a inveja – entre Mozart e Salieri. Acompanhei todo o processo criativo a distância. Apesar de todas as oportunidades, nunca li a peça, exceto o trecho, o monólogo inicial de Salieri, que saiu na Ilustríssima.Vibrei quando Gabriel Villela encampou a direção – a parceria dele com Dib é uma das melhores coisas que ocorreram no teatro brasileioro nos últimos tempos. São meus amigos, mas não é brodagem. Salmo 91, a tradução do Calígula (de Albert Camus), Crônica da Casa Assassinada e agora Um Réquiem para Antonio são porretas. Em outros mundos, sem a pequenez de certas cabecinhas que elegeram a cartilha do ‘coletivo’, todas essas montagens seriam saudadas como acontecimentos que foram (e são). Não ignoro a história anterior de Gabriel, que é grande, imensa, mas sei quanto o impulso que ele representa tem sido decisivo para o Dib. Havia perdido a estreia do Réquiem na quinta-feira. Fui ontem ao Tucarena. É uma sala de 300 lugares, devia haver umas 150/200 pessoas. Não sei como está a procura de ingressos para hoje e amanhã – Antônio Fagundes está arrebentando no teatro de cima -, mas ouso dizer que, se não lotar, será a prova de que São Paulo não merece espetáculo tão bonito. Elias Andreato, como Salieri, é consumido por uma chaga que lhe devora o íntimo. Há quem diga que Salieri não tinha inveja de Mozart, que era ele próprio grande, e sabia disso. Mas foi assim que a lenda os canonizou. Milos Forman, com base na peça de Peter Schaefer, imprimiu a lenda, como dizia John Ford em O Homem Que Matou o Facínora. Salieri era grande, era respeitado, mas aí surgiu aquela criança, com sua risada irritante. Mozart adorava sinuca, era escatológico – cagava, literalmente, nas amantes. Merda real, o barro humano. Gabriel usa uma sugestão do texto e cria um momento deslumbrante – Claudio Fontana, como Mozart, dá sua aula de piano usando bolas de sinuca. Quando Salieri tenta dar a aula dele, o som não sai. Pronto, com economia e brilho, fomos introduzidos ao que é o gênio em ação. De onde Gabriel Villela tira esses achados? Já o conheço há quantos anos? Ele não para de me surpreender com sua inesgotável imaginação visual. Aqui, faz a arena um picadeiro, transforma os antagonistas em clowns. Gabriel devia fazer cinema – vivo tentando convencê-lo a retomar um velho projeto que tinha com Diler Trindade. Ele ama Fellini, Kusturica. Seu teatro é impregnado de ambos. Ama também Lars Von Trier. A ‘interpretação’ da música de Mozart (e Salieri) – a Lacrimosa! – tem algo da releitura que Von Trier faz de Bach na genial última cena de Ninfomaníaca Volume 1 (que Gabriel ainda não viu). Salieri se despedaça em cena. No final, há outro monólogo, de Mozart, reconhecendo o outro. É muito interessante. Mozart, na peça, é uma (re)criação do imaginário de Salieri, que delira em seu leito de morte. Mozart morreu muitos anos antes. A mente ganha espaço e amplia-se no palco. Falei antes em antagonismo? Que antagonismo? Os dois são um, na mesma cabeça, essa é a sacada do texto. Há uma pirueta – um lampejo poético – no encerramento: não vou contar aqui. Dois (grandes) atores, duas atrizes, que cantam divinamente (Nábia Villela e Mariana Elisabetsky), um pianista (Fernando Esteves). Gabriel mistura Mozart com I Dreamed a Dream, da trilha de Os Miseráveis. Salieri lamenta-se – ‘Sou um miserável.’ O capricho, o cuidado, o carinho, a entrega são totais. Que outro diretor vestiria TODO o teatro? Cortinas, almofadas. Nós, na plateia da arena, somos parte da ação. Não é só no cinema que cravo minhas frases de efeito: pior para o público, se não descobrir e prestigiar o Réquiem para Antonio. Não vai saber nunca o que perdeu.

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