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Carrière, entre observação e imaginação

Luiz Carlos Merten

10 de julho de 2019 | 10h36

No fim da vida de Luis Buñuel, a parceria com Jean-Claude Carrière tornou-se tão importante que o roteirista foi ghost-writer das memórias do grande cineasta. Carrière escreveu os seis últimos filmes de Buñuel, incluindo A Bela da Tarde, e colaborou com Jean-Luc Godard, Milos Forman, Volker Schlondorff, Louis Malle, Philip Kaufman, Peter Brook, Nagisa Oshima, Andrzej Wajda e um imenso etc. Afinal são – segurem-se! – mais de 150 roteiros, incluindo, como vocês podem ver, diretores seminais. Na entrevista do Estado, por absoluta falta de espaço, não pude acrescentar uma informação que me parece muito importante. Em maio/junho deste ano, Carrière foi homenageado pelo Museum of Modern Art de Nova York, o MoMa, com uma retrospectiva de sua atividade como escritor de cinema, a primeira que a instituição dedicou a um roteirista. Ninguém melhor do que ele sabe o que significa ter sido parceiro de Buñuel, mas Carrière fala, com um carinho imenso, sabem de quem? De Pierre Étaix, o assistente de Jacques Tati, criador de M. Hulot, que se tornou, ele próprio, um home destacado do humor, com seu personagem YoYo. É curioso, mas, com Étaix, Carrière aprendeu o valor do timing e da observação da vida cotidiana,’roubando’ fragmentos de conversas captados na rua, em cafés, no metrô, para expressar o ridículo e o sublime da condição humana. Esse lado, digamos, realista, documentário de seu trabalho representa só uma parte da atividade de Carrière, porque com Buñuel ele aprendeu justamente a liberar a imaginação, a criar ‘de dentro’ e a se utilizar de objetos e situações verossímeis para atingir o inverossímil – o surreal? Não podia deixar de acrescentar esse post, e para editores chamo a atenção especial para Ateliers. Carrière contou que lança, neste semestre, e com esse título, um caudaloso volume de mais de 400 páginas, que está definindo como suas memórias técnicas. Um guia prático dos problemas que ele teve de resolver como escritor, dramaturgo e roteirista, trabalhando com literatura, teatro e cinema. Com certeza, existe público para Ateliers no Brasil.