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Carne trêmula, monólogos teatrais

Luiz Carlos Merten

09 Setembro 2018 | 10h43

Havia encontrado Paula Cohen quando fui ver A Dona da História e ela me exortou (chic, não?) a assistir a seu monólogo no Teatro Eva Herz. Sábado, 6 da tarde. Lá fui eu, ontem. Carne de Mulher baseia-se no Monólogo da Puta no Manicômio, de Dario Fo e Franca Rame. O texto original é de 1977 – tem mais de 40 anos, portanto. Paula apropriou-se do texto, interpreta. Dá voz a uma mulher que sofreu sucessivos abusos e agora põe a boca no mundo. Éramos poucos homens na plateia, predominância absoluta das mulheres. Gostei de ter visto, mas… Paula vai me perdoar, mas achei muito mais stand up que encenação teatral. Me perturba essa questão da profissional do sexo. A mais velha profissão do mundo… Nos anos 1950, o jovem François Truffaut ironizava. Dizia que não conhecia nenhuma criança que dissesse que queria ser crítico de cinema quando adulto. Criança, não, mas adolescente… Hoje, pelo contrário, todo mundo quer ser (crítico de cinema). Quando tento ler o que escrevem, os jovens, invariavelmente desisto. Mal saíram dos cueiros e já têm um discurso contra a superficialidade. São os que mais cobram ‘profundidade’ no cinema, só que eles não consideram profundo o que eu creio que seja, por exemplo. Não creio, como Paula, em seu texto, que seja um sonho das garotas – ‘Vou ser puta, quando crescer.’ Sou contra toda violência contra a mulher, o gay, o negro, que virou a maior vítima dessa verdadeira guerra civil que é a violência institucionalizada no Brasil, hoje. Mas eu ainda acho que as melhores obras sobre a prostituição, que conheço, são filmes – Anna Karina, Naná, em Viver a Vida, de Jean-Luc Godard; Bree Daniels, Jane Fonda, em Klute – O Passado Condena, de Alan J. Pakula. Quando surge, no meio da plateia, usando underwear, Paula pede às mulheres que escrevam seus nomes no corpo dela. No palco, vira emblema de todas aquelas mulheres. Carne trêmula… Trata-se da única verdadeira ideia de mise-en-scène do espetáculo. A carne viva. Saí correndo da Livraria Cultura, do Conjunto Nacional, para o Centrão. Havia adquirido ingresso para ver, às 8, Histórias Extraordinárias, no CCBB. A série teatral é formada por seis narrativas clássicas de horror e fantástica, agrupadas de duas em duas. A Cor Que Caiu do Céu (H.P. Lovecraft) e Frankenstein (Mary Shelley) abrem a série. É incrível como a ideia da ‘carne’permeia todos esses monólogos. Passo pela Cor, sorry. Foi o que menos me interessou, apesar da, ou talvez por causa da parafernália técnica. Amei o Frankenstein – mas, também, Roberto Alvim e Juliana Galdino. Esses dois estão num patamar tão alto para mim que, deles, nunca espero nada que não seja ‘grande’.