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Carne trêmula (2) e a tragédia de Frankenstein

Luiz Carlos Merten

09 Setembro 2018 | 11h26

Talvez seja falha minha, mas associava Sérgio Roveri, que foi meu colega no Estadão, a um tipo de texto humorístico, frívolo. Meu choque em Frankenstein começou por ele. Juliana Galdino, irreconhecível – a massa física, a dicção – ocupa o espaço cênico. A particularidade do palco do teatro do CCBB é que sempre nos coloca, o público, em contraplongê – a menos que estejamos no mezanino. Das suas tragédias gregas às histórias extraordinárias, Roberto Alvim coloca sempre no palco um mundo de sombras. Frankenstein, o monstro, indaga-se sobre a sua origem. Tem consciência do horror que representa, criado com restos de cadáveres. Lê o texto de seu criador, e parte em busca dele. Encontram-se, criador e criatura. Roveri e Alvim situam seu Frankenstein na Guerra do Iraque. O texto dá conta da angústia do monstro, abjeto, por sua imperfeição, aos olhos de todos os homens. Aos olhos de seu criador, que não tem a mínima compaixão por ele. Dor e sofrimento que começam no texto e viram mise-en-scène – luz e sombra, outro corpo trêmulo, uma voz dilacerada, a trilha. Dr. Frankenstein, o homem que quis ser Deus. Homens/monstros e deuses. São só 40 minutos de monólogo – menos. Fiquei chapado. No fim de abril ou início de maio, antes de embarcar para Cannes, havia visto a Fedra de Roberto Alvim e Juliana Galdino. Jean Racine. Em Paris, havia outra Fedra, mais rara, a de Sêneca. Cheguei tarde demais, havia terminado no fim de semana anterior. O classicismo francês, do qual Racine é um dos expoentes, opõe concepções de valores morais – jesuitismo e jansenismo. Homens e deuses – e os eleitos. O oráculo (que Paula Cohen também cita em Carne de Mulher). Jansenius – a busca por um lugar no mundo e a impossibilidade de estabelecer um vínculo (com esse mundo). Tal é a tragédia de Frankenstein e o elo que une a revisão de Mary Shelley e Racine por Roberto Alvim, pelo menos no meu imaginário. Ele tem mais três monólogos na série do CCBB – Drácula, de Bram Stocker, e O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, com Cacá Carvalho; e A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, com Juliana Galdino. Confesso que, depois do Frankenstein, esse último é o que mais me atrai.