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Cannes Classics (e um De Sica lá, outro aqui)

Luiz Carlos Merten

18 de maio de 2019 | 10h32

Minha maior tristeza em relação a Cannes não se refere tanto à competição, porque o Almodóvar, o Tarantino, o Kechiche, o Ken Loach e o Xavier Dolan logo-logo estarão aqui. O Almodóvar já tem até trailer, ou teaser, que se pode conferir no YouTube. Só tenho de sobreviver ao pós-operatório, porque nenhum médico que consultei me diz que uma reposição de prótese de joelho é coisa fácil. Já vi Bacurau e adoraria estar lá, no caso de uma vitória de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O que lamento é estar perdendo a edição de Cannes Classics deste ano. Os filmes são restaurados, mas só em casos muito raros chegam aos cinemas, nas salas especializadas do Quartier Latin ou, quem sabe, do Lincoln Center. Cannes está comemorando, em 2019, os 50 anos de Sem Destino, de Dennis Hopper, e os 25 de Cidade do Medo,comédia clássica familiar do grupo francês Les Nuls. Alfonso Cuarón apresenta a sessão da meia-noite dedicada a O Iluminado, de Stanley Kubrick, e a programação ainda contempla três filmes de Luís Buñuel (Los Olvidados, Nazarín e A Idade do Ouro), um tributo a Lina Wertmuller (Pasqualino Sete Belezas), em presença da diretora e de Giancarlo Giannini, e outro tributo a Milos Forman, com Os Amores de Uma Loira. Só isso já seria atraente, mas tem mais – muito mais. Toni, de Jean Renoir; Moulin Rouge, de John Huston, no esplendor de suas cores; Kanal, de Andrzej Wajda; The Doors, de Oliver Stone; e clássicos orientais que só conheço pela reputação, o chinês Diário de Uma Enfermeira, de Tao Jin; a animação japonesa A Encantadora da Cobra Branca, de Taiji Yabashita. Cannes Classics ainda resgata obras referenciais da Georgia, A Caravana Branca, e da Hungria, A Tanu, Uma Testemunha. Mas eu confesso que dois filmes franceses dessa seleção me interessam muito – Le Ciel Est à Vous, rodado em plena ocupação por um cineasta com fama de maldito, Jean Grémillon, e 125, Rue Montmartre, de Gilles Grangier, um dos diretores de ‘qualidade’ que François Truffaut, nos Cahiers de capa amarela, adorava fustigar e hoje, 60 anos depois, ressurge com fama de injustiçado. Estou deixando para o final os italianos. A Primeira Noite de Tranquilidade, de Valerio Zurlini, com Alain Delon como o ‘professore’, e Delon está recebendo uma polêmica Palma de Ouro de carreira. A concorrência, sempre querendo criar caso, lembrou que ele bateu numa ex-mulher (Nathalie? Não imagino Romy Schneider nem Mireille Darc apanhando) e talvez por isso, para se penitenciar, o eterno Rocco deu uma recente declaração dizendo que sua única mágoa, no cinema, foi nunca haver sido dirigido por uma mulher, agora é tarde para remediar. Por fim, De Sica. Em 1951, ainda não havia a Palma de Ouro. Milagre em Milão ganhou, naquele ano,o Grand Prix, ex-aequo com Senhorita Júlia, de Alf Sjoberg (e o prêmio de mise-en-scène foi, sabem para quem?, Buñuel, por Los Olvidados). De Sica realizou Miracolo a Milano entre seus maiores filmes neo-realistas, Ladrões de Bicicletas e Umberto D. A história de Totò il buono, parte sátira social, parte fantasia, como escreveu Pauline Kael. Totò foi resgatado, como bebê, do lixo por uma velha dama (Emma Gramatica, um mito da representação na Itália), que se transformou em anjo e lhe concedeu o poder de operar milagres, mas nem os milagres de Totò conseguem salvar o mundo da ganância – estamos falando de 1950 ou de 2019? Não estou em Cannes para ver Milagre em Milão, mas neste ano, 13 de novembro, que é o 45.º de sua morte, a Mostra, que vai se realizar, poderia homenagear De Sica trazendo Milagre em Milão, novo em folha na restauração 4K. Na segunda, no Teatro Denoy de Oliveira, às 19 h, a mostra permanente do cinema italiano resgata outro De Sica – L’Oro di Napoli, de 1954. Impregnado pelo espírito da commedia dell’arte e do Arlequim, o filme em esquetes foi recebido a pedradas pelos críticos, na época, que cobravam de De Sica o neo-realismo clássico, quando a Itália estava mudando (e ele também). A alma napoletana, Silvana Mangano e Sophia Loren. Eu, se puder, gostaria de rever O Ouro de Nápoles, até para compensar a falta de Milagre em Milão.