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Cannes (9)/Sessão do ‘Godard’ teve até ameaça de bomba

Luiz Carlos Merten

20 Maio 2017 | 19h50

CANNES – Cheguei aqui no hotel e fiquei quase uma hora tentando entrar no blog. Havia sei lá que problema. Provavelmente serei o último com as primeiras, fazer o quê? Houve uma ameaça de bomba agora à noite na Sala Debussy. Foi logo depois da sessão de Os Imperdoáveis, em presença de Clint, que, amanhã, domingo, dá sua master class. A sala foi evacuada e o acesso, interdito, enquanto agentes da segurança – com cães – vasculhavam o local. Virou piada – a ‘bomba’ era o próprio filme de Michel Hazanavicius sobre o romance de Jean-Luc Godard e Anne Wiazemsky no quadro de Maio de 68, Le Redoutable. Pobre Jean-Luc. Agnès Varda já o chamou de velho rabugento, porque o misantropo não lhe abriu a porta de casa em Visages Villages, o belíssimo ensaio/documentário que a viúva de Jacques Demy codirigiu com JR. Tenho visto alguns filmes bons – bons mesmo. O da Varda, o Garrel, o russo, o sueco – The Square, de Ruben Ostlund, sobre o qual prometo voltar a falar. Ainda estou tentando decantar o Hazanavicius. Como um diretor narrativo, comercial conta a história do ícone do cinema revolucionário? Louis Garrel é quem faz o papel. Stacy Keach é Anne Wiazemsky, que Godard conheceu visitando o set de Robert Bresson, Au Hazard Balthazar/A Grande Testemunha, mas Hazanavicius omite. Quando seu filme começa, Godard já está fazendo A Chinesa com ela, mas a cena escolhida não é a emblemática – Anne, de chapéu de cone, numa simulação da Guerra do Vietnã, gritando ‘Socorro, M. Kossygin, socorro!’ Le Redoutable projeta uma imagem nada lisonjeira de Godard como (falso) revolucionário. Suas intervenções nas assembleias de Maio são ‘minables’, no limite do patético. Para mostrar que ele não tinha visão/noção dos acontecimentos, Hazanavicius faz com que perca três vezes os óculos. Três! Godard = Mister Magoo. E, se você achava que, dos ícones da nouvelle-vague, François Truffaut era o pequeno burguês, bem, estava – estávamos – errados. Godard morre de ciúme de Anne. Agride-a, por conta disso. Ela se decepciona na ficção, claro. Decepcionou-se na vida. Escreveu o livro que inspirou Hazanavicius. Mas o filme, como boa comédia de erros (os erros de uma vida, de um romance), tem coisas engraçadas. Godard, consciente de que virou um item de consumo, diz que é um ator fazendo o próprio papel, e nem um ator muito bom. Louis Garrel olha seriamente para a câmera, quando diz isso. A plateia de Cannes quase enfartou de rir. Não sei se o efeito será global. Em outra cena, Godard reclama dessa mania de colocar atores nus diante da câmera. Very funny – Louis Garrel exibe um nu frontal nesse momento. Sorry, meninos e meninas, mas não vale o crime. Não é uma questão de tamanho. É outra coisa. No final, o Godard de Hazanavicius é um porre. Queixa-se de solidão, mas dificulta ao máximo o esforço de Anne para amá-lo, até que ela desiste. O melhor do filme é a reconstituição do mítico Maio – os paralelepípedos, que também estão em No Intenso Agora, de João Moreira Salles, incomparavelmente superior. No geral, Le Redoutable deve ter agradado. Não foi vaiado, e chegou a ser aplaudido.