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Cannes (9)/Bellocchio!

Luiz Carlos Merten

12 de maio de 2016 | 19h16

CANNES – A Societé Française des Realisateurs aproveitou a abertura da Quinzena para fazer um protesto contra o desemprego no setor. Morri de vergonha. A direita, que anda forte em toda parte, vaiava enquanto o representante da Sociedade tentava falar. Voltamos àquela fábula sobre o nazismo. A maioria silenciosa não queria saber de protesto enquanto os asseclas do nacional-socialismo iam dizimando todos os grupos resistentes. E aí chegou o momento em que os nazistas puderam fazer o que queriam, porque não tinha mais ninguém para protestar. Discurso abreviado, subiu ao palco a equipe do longa que abriu a Quinzena. Não existem representantes italianos na seleção oficial. Estão todos na Quinzena. O de abertura foi Marco Bellocchio, Fai Bei Sogni, Tenha Bons Sonhos. É a última frase que a mãe diz ao pequeno Massimo, antes de morrer. A vida inteira ele vai querer suprir essa carência e mais – vai tentar decifrar o mistério da morte da mãe. Cada vez que vejo um filme de Bellocchio, convenço-me, mais e mais, de que ele é o grande nome que restou do cinema italiano. Gostava de Paolo Sorrentino antes que ele virasse um sub-Fellini, gostei de Paolo Virzi (O Capital Humano), Gianfranco Rosi (Fogo no Mar) e algum outro mais, mas ninguém se compara a Bellocchio. Nos anos 1960, Bernardo Bertolucci e ele dividiam o holofote, mas, com o tempo, Marco foi ficando solitário no panteão. Achei o filme lindo. Estou nos cascos para entrevistar o diretor. Há tempos, desde Vincere, de 2009, aqui mesmo em Cannes, só falo com ele por telefone. Vai ser bom, espero!, trocar ideias olhando no olho. Vittorio Mastrandea faz Massimo adulto e do elenco participam Bérénice Bejo, Guido Caprino, Barbara Ronchi e, num pequeno papel marcante, a extraordinária Emmanuelle Devos, dos filmes de Arnaud Desplechin – que este ano, só para lembrar, integra o júri da competição, presidido pelo australiano George Miller. E chega, já passa da meia-noite (aqui) e quero dormir mais cedo, porque daqui a pouco teremos, depois do francês excêntrico da quinta-feira (Alain Guiraudie), o mais excêntrico ainda da sexta – Bruno Dumont, com Ma Loute.