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Cannes (8)/Meu choque com Barbet Schroeder

Luiz Carlos Merten

20 Maio 2017 | 09h38

CANNES – Uma manhã dedicada ao cinema francês. Na competição, 120 Battements par Minute, 120 Bastidas por Minuto. Coração acelerado. O filme de Robin Campillo é sobrer o Set-Up Paris, um grupo de militância que, nos anos 1990, tomou a peito alertar a sociedade francesa da epidemias da Aids, cobrando atitudes que o governo socialista (de François Mittérrand) não estavas tomando. o filme é muito bom, passa um sentimento de urgência e de perda. Quem, de nós, não tem seus mortos da aids? Campillo ousa – cenas de sexo, dos efeitos predadores da aids no organismo humano. Atores ótimos, à frente Adèle Haenel e uma dupla (Nahuel Pèrez Biscayaert e Arnaud Valois) que achei do cacete. Mas confesso que o filme me desconcertou – fiquei o tempo todo me lembrando de Cyrill Collard e suas Nuits Fauves, e me perguntando por que esse filme agora? Não que a aids seja um problema resolvido. Nãããoooo. Mas recomeçar a discussão do zero. A omissão dos governos, a ambiguidade dos laboratórios, as vítimas. Gostei, me emocionei, chorei, mas ainda estou pensando. Em compensação, tive um choque com o Barbet Schroeder. Teria de pesquisar para ver, exatamente, quando Barbert fez seu documentário sobre Idi Amin Dada. O documentário como obra de ficção. Idi Amin denunciado como clown sangrento que foi. Barbet Schroeder volta ao começo, ao documentário, com le Vénérable W. Jovem, aos 20 anos, ele conheceu o budismo percorrendo os lugares da peregrinaçãso do próprio Buda. O W do título é Ashin Wirathou, soi disant monge budista que se apresenta como líder do partido radical Ma Ba Tha em Mianmar, antiga Birmânia. A face budistas do terror. O cara é um monstro de fala mansa que pregas o nascionalismo e o amor, investindo contra os muçulmanos em seu país. É muito diferente ver pessoas morrerem em tiroteios em obras de ficção, mas mortos a pauladas… Mortes reais? Jesus! W. olha tranquilo para a câmera. Parece um santo homem. Desloca-se em carros último tipo, e um jornalista espanhol radicado em Mianmar levantar a questão do apoio econômico. quem paga a conta? Uma só vez W. se trai. Quando mostra no celular o filme que um de seus discípulos fez, reconstituindo o estupro e assassinato de uma garota por muçulmanos confessos. Não é de rir, mas ele dá uma sonora gargalhada, certamente antecipando o efeito das imagens sobre seus fanáticos seguidores. De onde vem essa atração de Barbet Schroeder pelos monstros – Idi Amin Dada, Jacques Verges,O Advogado do Terror, agora W.?. Na ficção, também – O Reverso da Fortuna, Cálculo Mortal etc. Estou chocado. Em todo o mundo, lobos em pele de cordeiro. Homens falsamente de bem. O horror parece não ter fim.